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Bastidores: Stalker

Pareceu-me muito importante que o filme respeitasse a regra das três unidades: de tempo, espaço e ação. Se, em O Espelho, eu estava interessado em introduzir cenas de documentários, sonho, realidade, esperança, conjeturas e recordações sucedendo-se umas às outras naquela confusão de situações que colocam o herói em confronto com as inelutáveis questões da existência, em Stalker eu queria que não houvesse nenhum lapso de tempo entre as tomadas. Meu desejo era que o tempo e seu fluir fossem revelados, que tivessem existência própria no interior de cada quadro; para que as articulações entre as tomadas fossem nada mais que a continuidade da ação, que não implicassem nenhum deslocamento temporal, e para que não funcionassem como um mecanismo para selecionar e organizar dramaticamente o material – eu queria que o filme todo desse a impressão de ter sido feito numa única tomada. Uma abordagem simples e ascética como essa parece-me rica em possibilidades. Para ter um mínimo de efeitos exteriores, eliminei tudo que pude do roteiro. Por uma questão de princípio eu quis evitar que o espectador fosse distraído ou surpreendido por mudanças inexploradas de cena, pela geografia da ação e por um enredo muito elaborado – eu queria que a totalidade da composição fosse simples e silenciosa.

Andrei Tarkovski, cineasta, realizador de Stalker, em seu livro Esculpir o Tempo (Editora Martins Fontes, pgs. 234 e 235). Abaixo, Tarkovski durante dois momentos das filmagens de sua obra, lançada em 1979.

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Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone

O bandido mexicano Juan Miranda (Rod Steiger) torna-se guerrilheiro por acidente. Tenta escapar da Revolução Mexicana, dos escudeiros maltrapilhos de Pancho Villa, e termina saudado, carregado pela multidão armada e não tão diferente dele.

Convertido em herói pela ótica do cineasta Sergio Leone, em Quando Explode a Vingança ele será o responsável por resumir o que é uma revolução. Como lembra, trata-se de homens que sabem ler guiando pobres a uma suposta liberdade. Depois, os homens que sabem ler engordam, enquanto os pobres continuam como antes.

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A visão amarga tem sua consequência: o parceiro e melhor amigo de Juan, John (James Coburn), joga na lama um livro sobre patriotismo. Especialista em bombas, o companheiro irlandês também tem seus motivos para desconfiar do conflito.

A revolução de Leone dá voz a esses seres amargos, desiludidos, que sorriem enquanto dizimam um pelotão de soldados mexicanos. A música de Ennio Morricone completa a ideia: o melódico encontra um estranho e possível casamento com a violência extrema.

O resto é resto, Leone faz o público acreditar. A vida, nessa revolução, ou guerra, não vale nada: homens são encurralados e mortos em buracos, enquanto o trem, ao fundo, emite a imagem da modernidade. O trem é a representação do progresso.

Não por acaso, o filme anterior do genial cineasta abordava justamente a construção da linha férrea. Progresso e modernidade – ao olhar da prostituta interpretada por Claudia Cardinale – vêm acompanhados de sangue, de conflitos, de homens sujos.

Com Era Uma Vez no Oeste e, mais tarde, Era Uma Vez na América, Quando Explode a Vingança forma uma trilogia curiosa. É a parte do meio, lançada em 1971, na transição de gêneros: começa como faroeste, termina como filme de guerra.

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Os maltrapilhos – incluindo a família de Juan – queriam roubar diligências e bancos. São bandidos assumidos, divertem-se com seus instintos animais. É o que permite, até certo ponto, ver o faroeste: eles desejam apenas o conflito local, o ouro do banco, enquanto oram à beira de um altar improvisado, em busca de riquezas.

Terminar na revolução é inevitável: é o momento em que o filme ganha conotação política. É, por isso, o passo seguinte da colonização apresentada em Era Uma Vez no Oeste: não é mais um conflito limitado a uma região, muito menos movido por vingança pessoal. Era Uma Vez na América, depois, expõe a criminalidade como instituição: é sobre a transformação de jovens amigos em mafiosos.

No caso de Juan, sobra um rosto triste, sem quase nada senão a revolução em curso: sem a família, sem o melhor amigo. É a última das mutações em Quando Explode a Vingança, em seu plano final. Deixa espaço ao filme seguinte, mais frio, com o mafioso que recorre ao ópio para lembrar – ou criar – a história de sua vida.

São filmes feitos pela força da direção. Às vezes o roteiro nem mesmo convence. Em Quando Explode a Vingança, algumas passagens encurtam distâncias, soam inverossímeis. A comédia encontra assim seu espaço: no momento em que Juan solta seu sorriso, atirando sem parar, o espectador entende do que é feito esse terreno.

Tem todas as características de Leone, seu gosto pela grandiosidade. Nada soa pequeno ou banal. Homens são enfileirados, mortos e empilhados. A carnificina poucas vezes encontrou grandeza semelhante e música tão bela para lhe amparar.

(Giù la testa, Sergio Leone, 1971)

Nota: ★★★★☆

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A Trilogia Jason Bourne

O que torna Jason Bourne um herói é a perda da memória. Ao que indicam seus filmes, antes de perdê-la ele era apenas uma marionete do governo, um agente sem cérebro.

Esse herói que surge ao acaso, sem saber ao certo a origem de sua ação (apenas em reflexos, quando em perigo), nasce de situação estranha: Bourne só pode ser um herói se começar do zero, no instante que começa a “nascer”, ao ser retirado das águas do mar no primeiro filme da série baseada nos livros de Robert Ludlum, A Identidade Bourne.

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E será no encerramento da terceira parte, O Ultimato Bourne, que a personagem retorna às águas, ao fim, pare renascer novamente. Esse fechamento ao mesmo tempo misterioso e definido é um entre vários pontos de diálogo entre as partes.

Em A Identidade, o herói conhece uma moça (Franka Potente) por acaso. Ao ajudá-lo a chegar a Paris, ela torna-se sua companheira de aventura, depois sua mulher. Em O Ultimato, outra garota passa por sua vida – ainda que já estivesse na história desde o começo – e deixa algumas marcas. É a personagem de Julia Stiles, que, para escapar com Bourne, faz o que fez a outra, no primeiro filme: corta e pinta os cabelos.

A aproximação entre as mulheres produz um clima de déjà vu em O Ultimato, como em Um Corpo que Cai, de Hitchcock, no qual o protagonista – homem recluso, inverso do super-herói – transforma uma amante em outra para satisfazer os próprios desejos.

Mas os filmes da Trilogia Jason Bourne apenas esbarram nessa questão profunda. Em cena estão outras personagens que tocam seu caminho, que pouco a pouco o transformam, ou mesmo o humanizam. O herói, diferente do matador sem alma a serviço do governo americano, descobre igualmente suas fragilidades, seus sentimentos.

A ausência do passado torna-o paradoxalmente humano, ao contrário do que ocorre a muitos protagonistas de fitas de ação. Interpretado por Matt Damon, Bourne dá outra cara aos filmes de espionagem. Tudo graças a si mesmo, à personagem em constante acidente, cujo movimento, da primeira à última parte, leva-o às suas origens. Os filmes terminam e começam com ele.

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É a aposta na personagem, sobretudo. E Damon, ainda que pareça quase sempre insuspeito em suas ações, não deixa de ser, primeiro, o garoto americano solto no velho mundo europeu, cheio de perguntas, para se tornar, mais tarde, o homem que precisa encarar seu criador e descobrir o pior: ele queria ser recrutado para servir seu país.

A missão desse herói, nos três, é descobrir a si próprio: é o herói em caminho inverso, adulto o suficiente para se encher com estranhas dores de cabeça, para fazer perguntas antes de apertar o gatilho, para encarar o governo americano, vilão da vez.

Esse pai malvado feito de várias faces, a se revezarem em cada uma das partes, mostra-se inconfiável, produto de um mundo ainda em paranoia, ou parafuso.

O Bourne do primeiro filme é quem mantém as relações evidentes com essa velha ordem, como se a obra de Doug Liman ainda forçasse o cheiro dos velhos filmes anteriores à queda do Muro de Berlim, mas com outro ritmo, sem jogos de charme.

De qualquer forma, nem sempre a velocidade poderá excluir esses antepassados, todas as histórias que, de uma forma ou outra, moldaram algo como Bourne. Pois em A Identidade as lutas não são tão vivas, ou cheias de suor e sangue, como se veria depois.

o últimato bourne

A segunda parte, A Supremacia Bourne, marca a entrada do diretor Paul Greengrass na série. Seu Bourne não muda radicalmente. Apenas se deixa ver mais à medida que seu passado vem à tona, enquanto passa de país em país, de obstáculo em obstáculo.

Com Greengrass, o protagonista deixa ver ainda mais seus hematomas, sua dificuldade em cruzar cada cômodo dos labirintos altos ou baixos de Tânger, no Marrocos, em excepcional sequência de ação de O Ultimato. O Bourne da segunda e terceira partes não é exatamente outro, mas tem algo mais forte: oferece ao público dor intensa.

Encontrar aproximação entre tamanha correria é o que faz do herói de Damon alguém excitante, ao mesmo tempo alguém que não precisa ficar se explicando. O que o espectador sabe sobre ele não é muito diferente do que o próprio sabe sobre si mesmo.

Não há desculpas. A correria impõe-se, pois contra ele há muitas cabeças em algum outro ponto do globo – primeiro com seus velhos computadores quadrados, depois com telas planas, então ainda mais perto deste estranho mundo moderno.

Câmeras, impressões digitais, ligações – qualquer ação deixa marcas. O herói tenta se desviar delas enquanto busca sua identidade, sua história. Como descobre o espectador, Bourne não é Bourne. Ao nascer das águas do mar, no primeiro filme da série, ele começava então uma jornada para se tornar alguém, para forjar outra coisa, sem saber nunca em que dariam suas corridas, suas perguntas sem respostas.

OBS: A análise acima foi escrita antes da estreia de Jason Bourne, de 2016, também dirigido por Paul Greengrass.

(The Bourne Identity, Doug Liman, 2002)
(The Bourne Supremacy, Paul Greengrass, 2004)
(The Bourne Ultimatum, Paul Greengrass, 2007)

Notas:
A Identidade Bourne: ★★★☆☆
A Supremacia Bourne: ★★★☆☆
O Ultimato Bourne: ★★★☆☆

Foto 1: A Identidade Bourne
Foto 2: A Supremacia Bourne
Foto 3: O Ultimato Bourne

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Grandes cenas de ação nem sempre estão atreladas a orçamentos gordos, abusos de pirotecnia, tampouco a efeitos digitais em excesso (e muitas das cenas abaixo comprovam isso). São momentos saídos de filmes lançados nos últimos dez anos. Como se pode ver, é uma lista cheia de doses de emoção. E, vale lembrar, uma lista pessoal.

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20) Invasão à embaixada americana (Argo, de Ben Affleck)

Em 1979, durante a Revolução Iraniana, a Embaixada dos Estados Unidos é invadida. Em Argo, o momento ganha recriação empolgante, com a bandeira americana em chamas, tensão e alguns de seus membros escapando pelos fundos (abaixo).

argo

19) O pouso e a luta sobre a plataforma (Star Trek, de J.J. Abrams)

O retorno à franquia, com os heróis jovens, foi um acerto. E a escolha de J.J. Abrams para comandar a história, ainda mais. A sequência em questão é espetacular, quando Kirk, na companhia de dois agentes, salta no Espaço e chega à plataforma.

star trek

18) O ataque do urso (O Regresso, de Alejandro González Iñárritu)

É o início do calvário do protagonista, vivido por Leonardo DiCaprio. O conflito com o animal é impressionante. Após sobreviver a esse ataque, o herói passa o filme em busca de sua regeneração, entre muito gelo, também em busca do assassino de seu filho.

o regresso

17) Tiros na fronteira (Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve)

Um belo filme pouco lembrado na temporada de premiações de 2016, com boa interpretação de Emily Blunt como a agente do FBI que vai à fronteira com o México em missão especial. A sequência em questão é um dos pontos altos da obra.

sicario

16) Perseguição no estádio de futebol (O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella)

Sem edição perceptível, o plano-sequência chama a atenção. Os heróis, entre a multidão que assiste ao jogo futebol, procura pelo assassino de uma garota. Eles resolvem se embrenhar no estádio quando descobrem que o procurado é torcedor fanático.

o segredo dos seus olhos

15) Embate na casa de Calvin (Django Livre, de Quentin Tarantino)

Questões de raça são evidentes: é possível ver o olhar de ódio aos negros em cada gesto de Calvin Candie, o barão vivido por Leonardo DiCaprio, cuja morte, com um tiro no peito, dá vez ao banho de sangue na parte final da obra. É Django contra todos.

django livre

14) O tsunami (Além da Vida, de Clint Eastwood)

Dramas também podem ter grandes sequências de ação. Esse belo filme de Eastwood trata de vidas paralelas, de pessoas que, ora ou outra, são afetadas pelo sobrenatural, e começa com o tsunami que destruiu a costa da Tailândia em 2004.

além da vida

13) Perseguição na Turquia (007 – Operação Skyfall, de Sam Mendes)

Como de costume na franquia 007, a sequência inicial é sempre arrebatadora. Ou deveria ser. A de Operação Skyfall é uma das melhores da série, com Bond perseguindo um vilão pelas ruas, telhados e sobre os trilhos de trem (abaixo), em Istambul.

skyfall

12) Caçada noturna (Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen)

Esse grande filme dos Irmãos Coen tem ao centro um atravessador, um serial killer e um policial desiludido. Na cena em questão, o atravessador (Josh Brolin) tenta escapar de homens que retornam ao local de uma chacina à procura de uma mala de dinheiro.

onde os fracos não tem vez

11) Chacina no bar (Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino)

Antes dos tiros, Tarantino leva a longos e engraçados diálogos, com o jogo de cartas na cabeça, espiões passando-se por alemães e um alemão de verdade que senta à mesa para desmascarar os outros. Ou para mostrar como se pede uma cerveja na Alemanha.

bastardos inglórios

10) Colisão com lixo espacial (Gravidade, de Alfonso Cuarón)

Os astronautas são avisados, ainda nos primeiros instantes, que estão na rota de lixo espacial em órbita. É o início dos problemas da cientista interpretada por Sandra Bullock. Após o choque, ela fica à deriva, no Espaço, tentando se salvar.

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9) Exército encurralado (13 Assassinos, de Takashi Miike)

Os 13 samurais do título preparam uma emboscada ao tirano líder de um clã. Diferente da bela versão de 1963, dirigida por Eiichi Kudô, Mike dedica mais sangue e mais tempo à batalha final, que acaba ocupando quase metade de seu filme.

13 assassinos

8) O Dia dos Mortos (007 Contra Spectre, de Sam Mendes)

Difícil imaginar que Spectre conseguiria, pelo menos em sua sequência de abertura, antes dos créditos, superar Skyfall. Passado na Cidade do México, o momento é de pura empolgação, com Daniel Craig correndo para todos os lados, entre lutas e explosões.

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7) Matança na igreja (Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn)

Um dos filmes de aventura mais divertidos dos últimos anos, Kingsman tem uma sequência violenta e da qual, vale lembrar, seu protagonista é excluído. Quem ganha espaço é o agente vivido por Colin Firth, em momento de pura quebradeira.

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6) Transportando dois assaltantes (Drive, de Nicolas Winding Refn)

É para lembrar que grandes sequências de ação também podem ser construídas com pouco. Para lembrar que carros em alta velocidade, em clima realista, podem ser mais interessantes que o exibicionismo de Velozes e Furiosos e seus derivados.

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5) Tempestade de areia (Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller)

O filme inteiro é uma grande e única sequência de ação – ou, exageros à parte, é quase isso. A entrada na tempestade de areia dá vez ao delírio máximo da obra: é quando carros e homens são lançados ao ar, em “dia adorável”, como diz Nicholas Hoult (abaixo).

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4) Acidente na torre (Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson)

A explosão que anuncia a chegada do petróleo atinge o garoto, filho do protagonista vivido por Daniel Day-Lewis. O menino é lançado para trás, perde a audição. O petróleo jorra por todos os lados, enquanto os homens assistem a subida das chamas.

sangue negro

3) Soldado abatido pela bomba (Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow)

A sequência de abertura, a mais emocionante do filme de Bigelow, antecipa o que vem a seguir: a presença dos americanos em uma terra à qual não pertencem, os olhares cruzados, o risco da explosão a cada pequeno movimento.

guerra ao terror

2) Luta na sauna (Senhores do Crime, de David Cronenberg)

O capanga Nikolai (Viggo Mortensen) é encurralado por dois assassinos na sauna e tem de lutar com ambos, nu, pela própria vida. Uma sequência emocionante, física, com muito sangue e belamente orquestrada pelo mestre Cronenberg.

senhores do crime

1) Perseguição a Harvey Dent (Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan)

Filmes de super-heróis também têm momentos emocionantes. A sequência em questão vale pelo todo, quando o Coringa (Heath Ledger) tenta capturar Harvey Dent (Aaron Eckhart) pelas ruas de Gotham City e Batman (Christian Bale) luta para impedi-lo.

batman cavaleiro das trevas

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Victoria, de Sebastian Schipper

O desafio de fazer um filme em um único plano-sequência impõe o duelo com o espaço e o tempo. O roteiro deve estar a serviço de cada instante, já que o corte não é permitido e, por consequência, a impressão de continuidade em diferentes quadros.

Desafio proposto por Sebastian Schipper em Victoria, feito inteiro em um único “mergulho”, de uma festa, em uma casa noturna berlinense, a uma manhã simples, com a rua vazia, pela qual caminha a protagonista e personagem-título.

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O plano-sequência deixa a impressão de que o filme nutre-se do tempo perdido: é a ideia de que cada pequena partícula poderia ajudar a compreender mais as personagens, menos o que se deseja contar. Como Victoria (Laia Costa), esses seres mostram-se também nas banalidades, nos pequenos gestos. O filme custa a “começar”.

É sobre uma noite com Victoria, sempre feliz, permissiva, fugaz. Ela deixa-se levar pelos rapazes, aceita praticar um crime. Sequer sabe do que se trata aquela ação noturna: eles simplesmente pedem sua ajuda e ela aceita dirigir o carro para o bando.

Terminam em uma garagem ao lado de homens armados. Um dos novos amigos tem uma dívida da época em que esteve preso e precisa pagá-la. O preço é o assalto a um banco, no começo da manhã, ação da qual Victoria não pode se livrar.

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Com o plano-sequência, segue-se para dentro do carro, para as pequenas frestas, para as sombras – nem sempre se vê tudo com clareza, o que não deixa de ser proposital. O mundo trepida e escurece demais, um pouco confuso como a vida parece ser.

Essa falta de clareza impõe estranhos obstáculos: não se pode saber muito, nem passado nem futuro. Só se tem o instante seguinte – à exceção da parca história de Victoria, sobre sua infância em um internato, o que ajuda a entender por que aceita as condições dadas com facilidade e a visão da beleza onde não há.

A personagem é também a estrangeira, a estranha que tenta falar a língua dos outros e quase nunca tem sucesso. A suposta inocência não demora a perder espaço: Victoria envolve-se com os criminosos, traça planos para escapar da polícia.

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Fica entre a inocência e a bandidagem, levada ao sonho, ou a um jogo de videogame alucinado – o que também faz pensar nessa noite como pesadelo, com corridas e a dificuldade de dizer “não”, apenas parar e não fazer nada.

A entrada da trilha sonora marca uma transformação, ou apenas assinala o entrosamento entre personagens, como se passassem a compor o mesmo espaço. A música é ouvida apenas pelo público. É a maneira de Schipper dizer que as figuras da tela são dignas do drama verdadeiro, e não é necessário conhecê-las a fundo para crer nisso.

O que dita a força é sempre a velocidade, a falta do pensar, a agitação. A parte final passa-se em um hotel, local perfeito às pessoas de passagem, aos estrangeiros que não se entendem. A eles, restam apenas trombadas.

Nota: ★★★☆☆

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