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Bastidores: Cães de Aluguel

(…) Cães de Aluguel, que estreia em Los Angeles na próxima semana, é um dos filmes mais bem dosados, perturbadores e habilmente construídos que saem este ano. É um belo filme de gênero que está permanentemente rindo de si mesmo e da idiotice pueril do gênero: uma brincadeira de assalto sem assalto, um filme de ação que está perdidamente apaixonado pela conversa, um poema para o lado sexy de contar uma história e uma amostra de sabedoria precoce sobre a vida. Tudo isso de um cineasta iniciante cuja instrução consiste em seis anos atrás do balcão de uma locadora de vídeos de Manhattan Beach, um tempinho no Sundance Institute Director’s Workshop e um monte de aulas de interpretação. Quentin Tarantino descreve a si mesmo como um especialista em filmes que nunca botou os pés numa escola de cinema e que nunca quis fazer outra coisa além de dirigir filmes. “Estou tentando enfiar cada filme que já quis fazer neste primeiro”, ele diz animado.

Ella Taylor, crítica de cinema, em texto escrito na ocasião do lançamento de Cães de Aluguel nos Estados Unidos e reproduzido no livro Quentin Tarantino (organização de Paul A. Woods; Editora Leya; pgs. 37 e 38). Do trecho acima, vale destacar a passagem em que Taylor cita o fato de Tarantino ter sido balconista de vídeo-locadora, o que só reforça a mitologia que o próprio diretor manteve – ainda mantém? – por anos, ligada à sua formação cinéfila. Abaixo, Tarantino e o ator Harvey Keitel.

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Os cinco melhores filmes de Emir Kusturica

O diretor sérvio Emir Kusturica tem uma carreira sólida, migrando de filmes com características realistas a obras com contornos oníricos, traços do burlesco e inegável tom político. Sua filmografia atravessa a Iugoslávia comunista e chega à divisão territorial nos Balcãs, sob o clima das transformações políticas dessa região. Com duas Palmas de Ouro no currículo, o cineasta fez filmes fundamentais, como se vê abaixo.

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5) Gato Preto, Gato Branco (1998)

O realizador sérvio coloca-se de novo em terreno que conhece bem: o universo dos ciganos. Pai e filho vivem à beira de um rio e se relacionam com ciganos mafiosos e traficantes que representam uma nova ordem. Um filme anárquico, colorido, talvez o mais exagerado quando se trata da imersão do diretor na comédia burlesca.

4) Você se Lembra de Dolly Bell? (1981)

É o primeiro longa de Kusturica, uma joia que ganhou quatro prêmios no Festival de Veneza. Em cena, um panorama da juventude iugoslava, com festas em um clube local e idas ao cinema. O protagonista é um garoto que descobre seu primeiro amor, uma prostituta, enquanto lida com a doença do pai comunista e sua mudança de casa.

3) Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (1985)

A primeira Palma de Ouro de Kusturica. Uma crônica sobre os anos do comunismo na Iugoslávia após a Segunda Guerra, sob o clima ufanista do governo Tito. O filme é contado pelo olhar de uma criança, cujo pai, após zombar de uma charge de jornal no qual Marx aparece ao fundo de Lênin, é convidado a fazer uma “viagem de negócios”.

2) Underground – Mentiras de Guerra (1995)

Em três partes, Kusturica passa por três guerras em um panorama histórico da Iugoslávia, do regime comunista à dissolução, com a Guerra da Bósnia. O filme, que lhe valeu uma Segunda Palma de Ouro, traz, entre outras, a história de um grupo de pessoas confinadas em um porão, por décadas, sob a manipulação de um líder comunista.

1) Vida Cigana (1988)

A obra-prima do diretor. O filme marca sua adesão ao realismo mágico e à comédia burlesca, sem esquecer as questões política e social. Rapaz de uma comunidade cigana é obrigado a migrar para a Itália para trabalhar e, ao retornar para casa, descobre que sua amada está grávida e que o filho talvez não seja dele. Um dos pontos altos é a sequência da celebração, entre ciganos, do Dia de São Jorge. Nada menos que genial.

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Curso sobre Kusturica no Sesc

A partir de 26 de maio, o Sesc Pinheiros, em São Paulo, recebe o curso Kusturica: Humanista Excêntrico, sobre um dos grandes cineastas em atividade no mundo: o sérvio Emir Kusturica. O curso será dado pelo jornalista e crítico de cinema Rafael Amaral, à frente do Palavras de Cinema, e mergulha na obra de Kusturica, passando por quase toda sua carreira, com apresentação de cenas e análises com os alunos.

Sobre inscrição e preço do curso, consulte aqui. Abaixo, o conteúdo das quatro aulas.

Aula 1 (26/05)

As origens do cineasta/ o primeiro curta-metragem: Guernica (análise)/ o sucesso de Você se Lembra de Dolly Bell? e os traços que acompanharão o cineasta em todos seus filmes seguintes/ Os primeiros sinais fellinianos no cinema de Kusturica/ a nostalgia, o fascínio pelo cinema e o olhar do mundo ocidental/ A consagração de Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios com a Palma de Ouro.

Aula 2 (02/06)

A abordagem política e análise de cenas de Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (a comédia na Iugoslávia de Tito, pouco após a Segunda Guerra Mundial)/ Vida Cigana, a primeiro incursão de Kusturica no universo dos ciganos e o filme que marca sua entrada no chamado “realismo mágico”/ Análise de Vida Cigana.

Aula 3 (09/06)

Arizona Dream: Um Sonho Americano: Kusturica faz um filme nos Estados Unidos/ Os traços do diretor sobrevivem ao cinema americano/ A segunda Palma de Ouro: Underground – Mentiras de Guerra/ As influências do desmembramento da Iugoslávia e da Guerra da Bósnia em Underground/ A construção da personagem de Kusturica, suas distorções e o clima onírico/ A crítica ao governo comunista iugoslavo.

Aula 4 (16/06)

Gato Preto, Gato Branco: o retorno ao universo dos ciganos em outra comédia/ O povo cigano: as contradições entre as tradições e o mundo moderno/ O retorno a Cannes com A Vida é um Milagre/ Análise de A Vida é um Milagre/ Promessas e os trabalhos posteriores de Kusturica/ A importância da obra de Kusturica.

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A primeira casa de Charles Chaplin

Os filmes da Keystone derivavam do vaudeville, do circo, dos esquetes cômicos do teatro de variedades, ao mesmo tempo em que também eram derivados da realidade da América do início do século 20. Era um mundo de ruas selvagens e poeirentas, com casas de madeira de um só aposento; de armazéns e lojas de ferragens, dentistas e saloons; restaurantes e salões de beleza, vestíbulos de hotéis baratos; dormitórios com camas de ferro e lavatórios raquíticos; estradas de ferro e automóveis angulosos que estavam tomando o lugar dos cavalos e das charretes; homens com chapéus-coco e grandes suíças; senhoras com chapéus emplumados e saias balonê; crianças mimadas e cachorros perdidos. O material da comédia era a caricatura severa das alegrias e terrores ordinários da vida cotidiana.

David Robinson, crítico e historiador, em Chaplin – Uma Biografia Definitiva (Editora Novo Século; pgs. 105 e 106). Abaixo, uma cena de Carlitos e as Salsichas, um dos filmes de Charles Chaplin no estúdio Keystone, em 1914, seu primeiro ano em Hollywood. Algumas fontes creditam a direção desse curta-metragem a Mack Sennett, o chefão do estúdio; outras, à atriz Mabel Normand, no quadro abaixo.

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Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

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