Lista

Seis grandes filmes que discutem moradia e urbanização

A terra, a casa, o espaço das memórias. A especulação, as ações políticas, o Estado que não dá oportunidade àqueles que não possuem um teto. Os filmes da lista abaixo – de tempos, países e cineastas diversos – tratam, entre outras coisas, de todas essas questões. Grandes filmes que não perderam o fôlego e continuam atuais.

Vinhas da Ira, de John Ford

Clássico que valeu a Ford seu segundo Oscar (ele ainda ganharia mais dois). É sobre a saga de uma família que perdeu a fazenda em vivia e teve de cair na estrada, em busca de outro local para morar. À frente da caravana há inimigos e exploradores da mão de obra alheia. Em atuação sincera e marcante, Henry Fonda encabeça o drama.

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

Um daqueles filmes fundamentais para compreender o cinema político italianos dos anos 60. Rosi evoca a história de um político sem escrúpulos interpretado à perfeição por Rod Steiger, que usa seu poder para demarcar a cidade a favor da especulação imobiliária. No entanto, seu reinado vê-se abalado após um acidente com vítimas.

Cathy Come Home, de Ken Loach

O diretor britânico sempre foi favorável às minorias. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, realizado para a televisão, ele apresenta a saga de uma família em busca de moradia e suas dificuldades. Filmado com grande realismo, possui sequências cortantes e momentos de raro humanismo, com câmera livre e à beira do documentário.

O Quarto da Vanda, de Pedro Costa

Às aparências, o português Pedro Costa está mais interessado em ouvir relatos do que tratar de questões como a moradia. Por outro lado, esta não escapa ao universo em foco: surge ao fundo, nas paredes que resistem, ou na imagem de tratores que destróem as casas em que viviam algumas pessoas, em uma favela, Vanda entre elas.

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Em um tempo em que políticos brasileiros são descobertos em maracutaias envolvendo prédios embargados, Aquarius comprova sua atualidade, sua urgência. Na tela, Sonia Braga brilha como a resistente dona de um apartamento de frente para o mar, cobiçado por especuladores imobiliários com outros planos para o local.

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

O Brasil, de novo. E de novo com um exemplar de cinema potente, político e atual. Discute-se dessa vez a ocupação de prédios privados antes sem utilização. O trabalho de Caffé, apesar de tomar lado, não pretende dar uma resposta fácil sobre certos e errados nesse filme de momentos fortes, em uma mistura de ficção e realidade.

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Dez filmes de 2017 que prometeram muito e entregaram pouco (ou nada)

Todos os filmes abaixo foram lançados no Brasil em 2017. Todos – embalados por boas críticas e prêmios, além da participação em importantes festivais – prometiam, no mínimo, alguma empolgação. E todos, de alguma forma, terminaram se revelando verdadeiros fiascos. Detalhe: a lista é fruto de uma opinião pessoal.

10) A Criada, de Park Chan-wook

Sobram tentativas de criar cenas impactantes, e de mesclá-las a momentos eróticos. De mão pesada, sempre com previsíveis reviravoltas, mulheres pequenas e perigosas, o diretor coreano não faz mais que outro vazio exercício de estilo. Leia a crítica

9) Corra!, de Jordan Peele

Outro exemplo de filme superestimado. Em um tempo em que pouco ou quase nada chama a atenção, é natural que algo como Corra! passa-se por “original” ou “impactante”. Não que a ideia seja ruim. Falta alma, transborda artificialismo. Leia a crítica

8) Lion: Uma Jornada para Casa, de Garth Davis

Tão elogiado, chegou a ser indicado ao Oscar. Dá para entender, e reforça a ideia de que a Academia não é sinônimo de qualidade. Melhor com crianças do que com adultos, o filme está cheio de imagens belas e situações manjadas. Leia a crítica

7) De Canção em Canção, de Terrence Malick

Malick esteve outras vezes próximo do vazio. E por pouco não caiu nele. Em De Canção em Canção a queda é inevitável: consegue ser ainda pior que o anterior, Cavaleiro de Copas, com seus modelos em situações cotidianas, fingindo naturalidade. Leia a crítica

6) Passageiros, de Morten Tyldum

Outra boa ideia desperdiçada. Os belos do momento (Jennifer Lawrence e Chris Pratt) estão isolados no espaço. Aprendem a se amar. Amarrado ao filme de gênero, sem ousadias, o longa naufraga como mais um entretenimento passageiro, entre tantos. Leia a crítica

5) Aliados, de Robert Zemeckis

Outra junção de astros que não deu certo. A cena de sexo entre Brad Pitt e Marion Cotillard pode figurar entre as piores da História do Cinema, quando estão sozinhos no deserto. Misto de história de amor e paranoia, sem qualquer graça ou paixão. Leia a crítica

4) Até o Último Homem, de Mel Gibson

O tipo de material que clama pela guerra enquanto finge criticá-la, com sua personagem certa e irretocável, o bom menino cristão, sonho de consumo para qualquer mãe em busca do bom partido para a filha. Gibson, de novo, cheio de arroubos dramáticos. Leia a crítica

3) Alien: Covenant, de Ridley Scott

O público deu sorte: Ridley Scott ficou fora da direção de Blade Runner 2049, o qual assina apenas como produtor. Há um bom tempo o cineasta de Alien, o Oitavo Passageiro não consegue emplacar nada de interessante, como se vê em Covenant. Leia a crítica

2) It: A Coisa, de Andy Muschietti

Fenômeno de bilheteria, o filme prova que o gênero terror está vivo como nunca. Em cena, um punhado de sustos, um palhaço irritante e algumas crianças graciosas que, em algum lugar do passado, para boa parte do público já viu em ação. Leia a crítica

1) Mãe!, de Darren Aronofsky

Nenhum filme foi tão discutido em 2017 (até o momento) quanto Mãe! Há quem ame, há quem deteste. Aronofsky lançou mão da câmera trepidante, de um pouco de escuro, do isolamento, além de uma personagem feminina sempre a apanhar, sempre a última a saber. Mais uma bobagem vendida como “grande arte”. Leia a crítica

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Dez filmes delirantes com personagens aprisionadas

Filmes surrealistas ou do gênero terror apostam, ora ou outra, em personagens aprisionadas a algum local, ou a alguma condição. Não raro, o surreal também abarca o horror. Os resultados podem ser surpreendentes, como mostram alguns filmes da lista abaixo, de países e tempos variados, de diretores diferentes entre si.

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O Processo, de Orson Welles

Os labirintos de Kafka servem à perfeição ao realizador de Cidadão Kane. O resultado é um de seus melhores filmes, sobre um rapaz que é acusado sem saber do que se trata a acusação. Nesse meio, talvez seja culpado. Todos são culpados de algo, alguns já nascem assim. Um pouco futurista, um pouco no terreno do terror.

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados deixam a grande casa com pressa. Os burgueses veem-se sozinhos e presos, por dias, para em seguida assistirem à própria degradação. Por algum motivo inexplicável, não conseguem mais escapar da casa. Os dias passam. Vem o mau cheiro, a selvageria, o inesperado, a necessidade de sobreviver à reclusão.

Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski

A bela e jovem Catherine Deneuve logo se tornaria uma estrela, nos anos 60, época em que realizou o ousado filme de Polanski. Na trama, a moça é deixada sozinha em seu apartamento após a irmã sair em viagem. Sexualmente reprimida, ela é “atacada” pelos delírios e investe contra as forças que desejam penetrar seu espaço.

O Enforcamento, de Nagisa Oshima

A intenção era matar o condenado à morte, colocado na forca e visto pela plateia à espera de seu fim, no Japão. Mas o coreano em questão sobrevive. O que fazer, então, com essa execução fracassada, a cerimônia que não deu certo? Na obra-prima de Oshima, os carrascos com supostos bons modos deliram, presos, à volta do condenado.

Imagens, de Robert Altman

O mestre Altman teria bebido na fonte de Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman, para compor esse filme original e exigente, sobre uma mulher que passa a ter delírios, em uma casa afastada. Por ali, ela, vivida por Susannah York, recebe estranhas visitas – ou imagens -, como a do namorado morto e a de uma criança.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Policial católico investiga o desaparecimento de uma menina em uma ilha na Escócia. O local é propriedade particular de uma espécie de bruxo hippie, vivido por ninguém menos que Christopher Lee. O suposto paganismo – ou a libertinagem – confronta o policial quadradão e impotente, que entra na ilha para não mais deixá-la.

Alice, de Claude Chabrol

Grande filme nem sempre lembrado do mestre francês, com a musa Sylvia Kristel. Inspirado em Lewis Carroll, aborda a entrada de uma mulher à grande casa que encontra, por acaso, enquanto viaja de carro. Embrenha-se no espaço verde, ultrapassa os muros, conhece a casa – e desses ambientes demora a escapar.

Hausu, de Nobuhiko Ôbayashi

Delirante, entre a comédia e o horror, sobre uma menina que viaja, nas férias, para a casa da tia. Com as amigas, vê-se presa ao local. Coisas estranhas acontecem: esqueletos dançam, o piano ganha vida, um gato observa, espíritos rondam o local. Espera-se qualquer coisa desse grande filme japonês, à exceção do convencional.

Anticristo, de Lars von Trier

A morte do filho, no início, é paralela ao gozo sexual, à penetração. O agitador Lars é pouco chegado às concessões. Para muitos, seu filme soa indigesto, com cenas fortes, incluindo momentos de mutilação. Animais ganham voz. Homem e mulher, o casal, são presos à floresta, ao local chamado de Éden, e terminam em inevitável embate.

Mãe!, de Darren Aronofsky

Mais um casal isolado. É a nova aposta de Aronofsky no campo das representações religiosas, na casa-planeta convertida em labirinto, em prisão, ou na mulher que não entende as estranhas visitas ao local. O marido, um deus permissivo, estranho, deixa que o local seja povoado por convidados. Tudo, claro, descamba ao horror.

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Dez grandes filmes (há dez anos)

Alguns grandes filmes chegavam às telas do Brasil e do mundo há aproximadamente 10 anos. Inegável que 2007 foi um ano desigual ao cinema moderno, levando em conta o número de trabalhos memoráveis. Os dez preferidos do blog seguem abaixo, em ranking, para recordar a frase que virou clichê: “parece que foi ontem”. À lista.

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10) Sol Secreto, de Lee Chang-dong

Após perder o filho pequeno, mulher descobre a bondade da religião, mas confronta Deus ao perceber que o criminoso recebeu a absolvição divina. O diretor coreano é um dos mais talentosos de sua geração e, sem concessões, revela nos filmes o cotidiano de pessoas que tentam encontrar alguma fuga e invariavelmente fracassam.

9) Desejo e Perigo, de Ang Lee

As cenas de sexo são impactantes, ainda que o filme ultrapasse o limite do prazer. As personagens sentem algo a mais. E o fundo político ajuda no resultado, quando a China via-se sob dominação japonesa. Na trama, uma jovem revolucionária (Wei Tang) infiltra-se no universo de prazeres do “inimigo”, um político poderoso.

8) Zodíaco, de David Fincher

Quem esperar por respostas e pela revelação do assassino pode se frustar. O resultado é o melhor filme do cineasta, com condução segura, elenco afiado e ótima reprodução de época. Aborda a paranoia, a dificuldade de um cartunista (Jake Gyllenhaal) em se afastar da teia de assassinatos ligada ao tal Zodíaco.

7) O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel

Preso ao próprio corpo, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) revisita sua vida, a de um homem mulherengo tomado pelo desejo de liberdade, até o dia que se vê imóvel. Sua forma de comunicação resume-se a uma pálpebra, forma que encontra para dizer o que sente, para escapar daquele escafandro ao qual foi confinado.

6) Santiago, de João Moreira Salles

A história do mordomo Santiago, que trabalhou por 30 anos para a família do cineasta e que, na grande casa em que viveram, viu desfilar figuras importantes da história. Também o retorno, pelos olhos do mesmo, ao cinema, de Fred Astaire a Yasujiro Ozu. Obra de redescoberta, verdadeiro tesouro que quase se perdeu.

5) Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas

A abertura, com sua calmaria rumo à luz, explica um pouco do que vem pela frente. Em cena está um homem da comunidade menonita mexicana. Vive isolada com a família, com pouco contato com o mundo externo, a recusar o progresso. Tudo muda quando ele envolve-se com outra mulher. Belo filme com ecos de Dreyer.

4) Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho

O diretor brasileiro leva diferentes atrizes e mulheres à frente da câmera para uma entrevista, enquanto deixa ver o difícil ato de ouvir, de dialogar. Não se trata, é verdade, de uma verdadeira entrevista, e nem tudo é real como se imagina. A certa altura, mulheres podem ser atrizes, atrizes podem estar falando de si mesmas.

3) Onde os Fracos Não Têm Vez, de Joel e Ethan Coen

Longe do filme policial esperado, ou do faroeste de fronteira regado a combates entre mocinhos e bandidos, índios e brancos. O caminho é imprevisível, sobretudo, a partir da metade: alguns homens correm atrás de uma mala cheia de dinheiro enquanto um xerife, perto de se aposentar, lamenta a mudança dos tempos.

2) 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu

A contagem regressiva do título traduz a corrida contra o tempo de duas moças na Romênia ainda à sombra de Nicolae Ceaușescu e da Cortina de Ferro. Uma delas recorre ao aborto clandestino, a outra decide ajudar a amiga. O cinema romeno chega à sua consagração, com a Palma de Ouro em Cannes, com esse drama feminino e poderoso.

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

O título nacional refere-se ao petróleo. O original é também instigante: Haverá Sangue. Em cena, a cobiça de um homem, o vilão interpretado por Daniel Day-Lewis, a quem nada é mais importante que o poder, nem mesmo o filho pequeno. Com fotografia em tons escuros, o americano Paul Thomas Anderson realiza seu melhor trabalho.

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Os filmes de Bong Joon-ho

São os monstros – humanos ou criaturas – que marcam os filmes de Bong Joon-ho. Da Coreia do Sul, o cineasta firmou um olhar autoral. Seus filmes mesclam violência a personagens errantes, um pouco cômicas, às vezes verdadeiras demais. Recentemente, Joon-ho dirigiu Okja, produzido pela Netflix e pivô de um debate no Festival de Cannes, quando salas de cinema da França se recusaram a distribuir um filme lançado simultaneamente na plataforma de vídeo sob demanda.

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Memórias de um Assassino (2003)

Em uma pequena cidade da Coreia do Sul, um policial local une-se a um policial da cidade para tentar encontrar um assassino em série. Surgem alguns suspeitos, homens são presos, mas a investigação não avança. Ao tentarem descobrir o caso, esses agentes de segurança acabam traídos por si próprios: apelam à violência.

O Hospedeiro (2006)

Um monstro emerge de um rio escuro e segue rumo à multidão desesperada. A cena impressiona. Ao mesmo tempo em que trabalha com o cinema de gênero, Joon-ho aposta em suas costumeiras esquisitices. Na trama, uma menina é raptada pelo monstro e membros de sua família resolvem enfrentá-lo.

Tokyo! (2008) (episódio Shaking Tokyo)

O diretor coreano divide esse filme, feito em três histórias, com outros dois cineastas de talento: Michel Gondry e Leos Carax. Seu episódio, o último, é talvez o melhor dos três. Narra o cotidiano de um rapaz que vive trancado em sua casa, isolado dos outros há 10 anos. Sua vida muda quando conhece uma entregadora de pizza.

Mother – A Busca Pela Verdade (2009)

Uma mãe (Kim Hye-ja) segue caminho tortuoso para tentar tirar o filho da cadeia, acusado de matar uma garota após uma noite de bebedeira. Como em Memórias de um Assassino, o espectador não encontra as respostas que deseja – tampouco personagens heroicas. Grande filme que coloca em xeque a sanidade de seus seres.

Expresso do Amanhã (2013)

No mundo congelado e futurista em que se desenrola essa ficção científica, homens travam uma batalha de classes no interior de um trem em constante movimento. No fundo está a ralé, vigiada por soldados armados; nos primeiros vagões, a classe dominante. Um trem do futuro que reflete apenas o passado.

Okja (2017)

Outro filme de monstro do diretor sul-coreano. Dessa vez, um monstro bondoso, o porco Okja, fruto do experimento de uma grande empresa de carne. Quando esse animal é retirado de sua floresta e da companhia de uma menina, tem início a aventura que envolve interesses financeiros, ações de ambientalistas e, claro, amizade.

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