Autor: Rafael Amaral

Ato Final, de Jerzy Skolimowski

Com as palavras erradas, o jovem protagonista de Ato Final recorre ao corpo. Em boa parte do tempo, corre e se contorce para tentar provar algo à menina que ama, Susan (Jane Asher), sua parceria de trabalho em uma casa de banhos. Esses sentimentos soam estranhos entre os sinais de libertinagem da Swinging London.

Os sinais são evidentes, o sentimento é preso. O filme todo se desenvolve a partir desse conflito, ou dessa diferença, e leva ao garoto inexperiente, um pouco abobalhado, tramando situações para evitar que a amada termina nos braços de outros homens mais velhos. A juventude é desajeitada e não menos verdadeira.

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O menino corre à parte, pouco ou nada consciente de seu tempo: ele quer apenas viver, estar com a menina que ama e é feito de pura emoção. Ele é Mike, levado ao primeiro emprego nos instantes iniciais, à casa de banhos com paredes um pouco deterioradas, frequentada por homens e mulheres. O local mescla encontros sexuais ao olhar desconfiado de alguns, ao gerente que pede para ser chamado de “senhor”.

Vivido por John Moulder-Brown, Mike é magro, tem o cabelo avolumado e a franja à frente dos olhos. Revela suas fraquezas ainda no início, enquanto foge das meninas ou das mulheres mais velhas, as clientes que tentam atraí-lo. Em um momento engraçado, uma mulher corpulenta tenta forçá-lo a fazer sexo com ela, ao mesmo tempo em que o magricela, encurralado, busca meios para escapar.

A maneira adolescente e um pouco engraçada – maneira que tomaria o cinema americano cômico dos anos 80, com seus jovens atolados em descobertas sexuais e problemas relacionados ao ato – encontra, aos poucos, a realidade. O diretor polonês Jerzy Skolimowski não retira a ingenuidade do jovem protagonista, o que torna sua jornada ainda mais triste. No fundo, o menino apenas deseja fazer parte.

E essa mesma busca, entre tantos acidentes, dá errado a cada nova tentativa, a cada aventura no rastro da menina que trabalha com shows de dança e mantém diversos companheiros. Entre eles estão um professor de natação e um funcionário da casa de banhos, além de seu noivo, que a presenteia com uma aliança cara.

A presença do sangue sobre a bicicleta, nos créditos, dá a ideia rompimento. E as mudanças não chegam sem dor. Enquanto persegue Susan, Mike termina em um cinema no qual se assiste a um “filme adulto”, ou um “pornô de arte” típico da época: um filme que representa justamente o contrário à obra de Skolimowski, no qual se tenta explicar o desejo sexual (ou sua falta), no qual o erotismo parece brincadeira.

É nessa sala de cinema que Mike toca o corpo de Susan. Após repeli-lo, ela inesperadamente retornará ao garoto com um beijo. O suficiente para que ele vibre e tenha certeza de que a ama. E o suficiente para que continue a criar obstáculos para que a moça não tenha novos encontros com companheiros de ocasião.

O menino descobre o cinema adulto, a casa de shows, uma prostituta com gesso na perna que se insinua e todo um ambiente de repentina libertinagem – nos tempos da minissaia e do rock. Enquanto tenta se aproximar de Susan, Mike não consegue – ou talvez não deseje – fazer parte desse movimento. Sem palavras a ceder, e sem as palavras dela sobre a experiência sexual de ambos, ele apela à violência.

Anos antes, em Le Départ, o cinema de Skolimowski já ocultava um universo cruel, sob a aparência de brincadeiras e seres livres. Recorria também à personagem ingênua – com o rosto da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud – para contar a história de um rapaz apaixonado por carros e velocidade, em uma aventura com vários tropeços, furtos, brigas no trânsito e encontros amorosos. Um pouco como Mike, alguém que não se integra ao meio em que vive, sem muito poder sobre as palavras.

(Deep End, Jerzy Skolimowski, 1970)

Nota: ★★★★☆

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Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

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Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

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Entrevista: Anna Muylaert

Faces de uma Mulher, de Arnaud des Pallières

Seja pela forma física ou pelas atitudes, é difícil acreditar que as quatro mulheres – em quatro diferentes passagens – sejam a mesma. O diretor Arnaud des Pallières não pretende dar a resposta e, talvez de propósito, faz com que essas personagens caminhem mais às diferenças que às semelhanças ao longo de Faces de uma Mulher.

O argumento de que as diferenças fragilizam o filme não funciona. Ela é proposital. A ideia é justamente essa: encontrar mulheres que quase nada têm em comum a não ser um universo bruto ou um fantasma ou outro que cruza suas histórias. De resto, caberá ao espectador perceber que em uma mesma mulher podem existir várias.

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As diferenças tomam o público de assalto: até certa altura, não é fácil intuir que Adèle Haenel, Adèle Exarchopoulos, Solène Rigot e Vega Cuzytek são a mesma pessoa. A narrativa adotada segue ao passado, da mulher que acreditava estar estabilizada (Haenel) à criança (Cuzytek) que descobre a morte, entre toques realistas, sem oferecer “contornos apaixonantes”, comuns aos filmes sobre o universo feminino.

Eis outro ponto a favor da obra: a mulher – ou as mulheres – não é tratada como uma personagem da qual goteja amor, ou alguém empenhada apenas em demonstrar sua bondade ou inclinação à figura materna. As mulheres tentam sobreviver com diferentes máscaras, a depender de homens violentos e controladores, ou mesmo em fuga.

E tão excitante quanto enxergar apenas uma é vê-las como seres diferentes, com histórias distintas que se encontram apenas pela presença feminina, ou pela maneira como todas – ou uma só – foram moldadas pelas circunstâncias. Pertencem a um universo real e violento, da brincadeira que termina em morte (na infância) à culpa que retorna mais tarde (na vida adulta), quando tudo parecia sepultado.

A essa altura, no início de Faces de uma Mulher, quem está em cena é Renée (Haenel), diretora de uma escola infantil que faz planos para ter um filho. O sonho da vida em família logo se desfaz: reaparece em seu caminho a bela Tara (Gemma Arterton), com quem a protagonista dividiu um golpe sete anos antes.

Mesmo com outro nome, escondida em uma vida tranquila, Renée é vítima do passado, na presença da mulher que volta para lhe cobrar. E ao passado o espectador avança com a presença de outra (ou da mesma), agora com Adèle Exarchopoulos.

Pouco mais que uma adolescente, ainda com o olhar furtivo de sua personagem em Azul é a Cor Mais Quente, Exarchopoulos exala ao mesmo tempo desejo e dúvida, como se nunca soubesse ao certo as regras do terreno no qual se move. Mas sabe do perigo que representa: ela aceitará ser adotada por um homem que vive de apostas em um hipódromo, no qual a mesma moça tornar-se-á funcionária.

É nesse espaço de apostas que conhece Tara, que, como ela, dedica-se a fazer companhia a homens com algum dinheiro ou risco, seres que apontam à fragilidade desse mesmo sistema. Pois as mulheres, em qualquer época ou história, estarão à mercê da fragilidade, do momento, do golpe errado e, talvez, do destino.

Da fragilidade segue-se à prisão, não exatamente em sua forma literal. A mulher está aprisionada, antes, ao quadro, à mise-en-scène de Arnaud des Pallières. O olhar e o movimento são captados com proximidade, com o uso da câmera subjetiva, do close, sempre a encurralá-las. Estão livres, ainda assim, do julgamento apressado, em um filme que compõe uma vida a partir de várias. Ou seria o contrário?

(Orpheline, Arnaud des Pallières, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Fátima, de Philippe Faucon

A personagem-título é uma mulher isolada: não tem a atenção da filha mais jovem, uma adolescente rebelde, nem a da filha mais velha, que acabou de se mudar e estuda medicina. É vista sozinha diversas vezes, com alguma distância, em movimento, em instantes que a recobrem de tristeza sem qualquer esforço.

Interpretada por Soria Zeroual, Fátima luta para que as filhas não sejam totalmente tragadas aos costumes do mundo ocidental, ainda que em vão. Reclama quando a mais nova usa roupas que expõem partes do corpo, ou quando a mais velha não teria cumprimentado uma vizinha, também mulçumana, no transporte público.

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São pequenas situações que pouco a pouco recheiam o drama desse filme sem rodeios e realista, dirigido pelo cineasta Philippe Faucon. Sua visão humanizada da comunidade mulçumana – não totalmente dentro nem totalmente à parte da sociedade francesa – não vai além de pequenos choques cotidianos, como na sequência em que Fátima tenta conversar com a mãe de uma amiga de sua filha, no supermercado, e é ignorada.

A protagonista trabalha como faxineira em diferentes locais. Sai de casa cedo e chega tarde. Vende ouro para dar o dinheiro à filha mais velha e, mais de uma vez, precisa cobrar e confrontar a mais nova quando esta não apresenta o comportamento desejado na escola, ou quando falta às aulas e recebe notas baixas.

Fátima concentra o drama, o olhar perdido, frio, e sozinha resolve escrever sobre seus problemas. Descobre, mais tarde, uma médica decidida a ouvi-la. E confessa que sua dor não é apenas física, não apenas localizada no braço que machucou após sofrer uma queda na escada, em um de seus trabalhos. São pesadelos que lhe causam a dor.

Sobretudo, e sem que seja necessário explicar tanto, os pesadelos estão ligados ao sentimento de ter fracassado em sua luta. É o sentimento, diz Faucon, do imigrante ao qual restam somente trabalhos secundários em um país de poucas cores, ao som das máquinas e do transporte que, todo dia, ainda cedo, recolhe mulheres como Fátima.

Tal drama, é verdade, já foi mostrado outras várias vezes: o da grande mãe que luta para dar tudo às filhas e termina repelida. Mas o filme de Faucon tem uma energia que lhe confere algo a mais, uma série de pequenas situações encadeadas entre elipses, sem recorrer a explicações excessivas. O tempo traz algumas mudanças e deixa tudo um pouco como antes: enquanto uma das filhas é aprovada na universidade, a outra não mudou nada desde o início. A luta de Fátima, ao fim, está longe de terminar.

(Fatima, Philippe Faucon, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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Locke, de Steven Knight

Boa parte de Locke prende-se às expressões do homem que dirige à noite, sozinho, sem parar. O espectador continuará com ele o filme todo, no carro, à beira do imobilismo. Depende assim de suas menores reações, do talento do ator em questão.

Tom Hardy conduz lentamente ao seu interior. O filme joga as situações aos poucos, com naturalidade. Não demora a revelar o drama: ele, Ivan Locke, deixou o trabalho para encontrar uma mulher com quem passou uma noite e que dará à luz um filho seu.

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Com pouco se sabe muito: são momentos importantes para sua vida, dos quais se vê alguém transformado. A estrada tem sua simbologia, claro, com o homem em uma viagem transformadora, tendo de revelar o caso adúltero à mulher, por telefone.

Como se não bastasse, Ivan terá de lidar com outras pessoas, sempre ao telefone, a compor esse filme de uma personagem em cena e vários dramas simultâneos: todas existem em um mesmo universo diegético, mas apenas uma é levada a mostrar o rosto e as expressões, e para apenas uma convergem todos os problemas.

Parte do interesse gerado pelo filme de Steven Knight vem justamente da necessidade de imaginar quem são as pessoas do outro lado da linha e que não param de procurar pelo mesmo homem, na mesma noite decisiva. Ivan fala com todos, tenta resolver problemas, tomar decisões sobre o parto do filho, sobre o trabalho que abandonou. Compra briga com representantes de sua empresa, perde o emprego enquanto dirige.

A vida transforma-se em tempo minúsculo e a história é contada em tempo real. As luzes externas compõem o clima e cortam o rosto da personagem – entre o sofrimento e a necessidade de cumprir sua missão, ao longo daquele caminho, como um ato de fé.

Define-se assim: missão. Ou prova de força. Ivan precisa provar ao pai morto – talvez presente em espírito, no banco de trás – que pode assumir o novo filho e não ser uma completa decepção (ainda que não exista afeto algum entre ele e a mãe da criança prestes a nascer). O protagonista, sabe-se mais tarde, foi abandonado pelo pai. Seu drama ganha novos contornos enquanto Hardy brilha em fúria e monólogos.

O motorista decide salvar a vida de alguém ao longo dessa noite. Decide que a criança prestes a nascer não sofrerá com a ausência do pai. Respira fundo ao falar para a mulher sobre o outro filho, e escuta as lamentações e as lágrimas da mesma. Chora pouco, depois, em outro momento profundo e inspirador de Locke.

O trabalho de Knight questiona o espectador sobre a necessidade de virar o jogo, de aceitar o caminho. Preso em um quadrado metálico, cercado pela tecnologia, Ivan fica entre o controlador e o obsessivo, sincero o suficiente para fazer doer.

(Idem, Steven Knight, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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