Deuses e Monstros, de Bill Condon

Para dentro, em seu ateliê de frente para a piscina, o cineasta James Whale retorna ao próprio passado, às suas pinturas, aos seus desejos. Para fora, quando observa o jardim pela janela, vê o novo empregado da casa, temporário, o belo jardineiro que expõe o corpo e os músculos – alguém alheio à ideia do desejo, senão para servir aos outros.

Mais ao jardineiro, menos ao cineasta, o cotidiano reduz-se aos dias de trabalho entre o mato e a terra, às idas ao bar atrás de mulheres dispostas ao sexo casual, aos brindes regados a cerveja, no fim do expediente, para se sentir um pouco mais livre – ou apenas por prazer. Seu choque, em Deuses e Monstros, será conhecer o espaço do cineasta.

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O jardineiro fica um pouco perdido, de cara, o que não deixa de ser previsível: sua primeira reação é atacar o artista homossexual, a quem o cinema não é suficiente para fornecer o que se espera da arte. Não o preenche. Precisa pintar, captar o belo, trazê-lo do exterior ao interior da grande casa, colocá-lo na tela, talvez imortalizá-lo.

Eis o drama desse belo filme de Bill Condon, quase um objeto estranho no fim dos anos 90, a rivalizar com Titanics e Soldados Ryan: à beira da morte, o que resta ao homem que amou a vida, a carne, que amou inclusive sob o odor fétido das trincheiras na Primeira Guerra Mundial, é o interior, ou o canal que pode levá-lo para tal: a arte.

Não é pouco. É a substância que diferencia deuses de monstros, ou apenas oferece o alento – e a abertura, a novidade, a descoberta, no caso do jardineiro – contra dias iguais, contra a condição do homem velho invadido pelas “tempestades” da mente. Whale, vivido por Ian McKellen, precisa confrontar os monstros de seu passado, e seu jardineiro.

O que faz o jardineiro alguém tão especial? Não é apenas a beleza. O jardineiro, interpretado por Brendan Fraser, traduz à tela a forma do homem obediente, da sociedade esperada, do ser quadrado e trabalhador – à contramão do mundo ao qual pertence, ou pertenceu, o cineasta preso à sua mansão, às suas lembranças.

Ainda que retornem, insistentes, Whale tenta escapar de seus “monstros” do passado. Dinossauros de tempos nos quais Hollywood havia sido mergulhada. O jardineiro é a abertura à novidade, ao mundo simples, mesmo que não deixe o protagonista escapar de seus instintos básicos, de sua caçada resumida, talvez, ao breve olhar pela janela.

Nasce da relação uma amizade. Opostos que encontram a atração por esse jogo entre lembranças e arte, entre o que o jovem pode descobrir – outro mundo, é certo – com um homem cheio de histórias, filmes, pinturas, que vem a desejar o mesmo sexo e a recordar os belos corpos nus que um dia desfilaram à beira de sua piscina.

Com sua cabeça quadriculada, o jardineiro chama a atenção do cineasta. Lembra-lhe, talvez, o monstro que imortalizou, que perseguia o doutor Frankenstein. Ao reencontrar o ator que deu vida à criatura, Boris Karloff, Whale observa ao fundo – ou através da cabeça do ator – o jardineiro, na mesma festa, espaço repleto de deuses e monstros.

Não o tronco ou os braços. O que chama a atenção é a cabeça quadriculada. Não importa a que lado olhe, termina a observar a criatura. Mesmo em seus sonhos. É ali que os lados invertem-se, em sua tempestade mental: Whale passa à condição do monstro, o jardineiro à do criador. No fundo, os lados confundem-se o tempo todo. Os deuses, fragilizados, próximos à morte, descobrem-se monstros, ou meros seres de carne e osso.

(Gods and Monsters, Bill Condon, 1998)

Nota: ★★★★☆

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