Antes Passe no Vestibular, de Maurice Pialat

Os diálogos dos filmes de Maurice Pialat remetem a um universo passageiro. Suas personagens dizem frases fortes sem intensidade dramática. Cabe ao espectador agarrar esses fiapos de profundidade, para que não escapem, e chegar à grandeza desse cinema.

Pialat faz filmes realistas, utiliza pessoas verdadeiras. Como Robert Bresson, pede que deixem o mínimo. O máximo é por conta da câmera. Em Antes Passe no Vestibular, por exemplo, há um diálogo revelador e um pouco perdido – como quase todos os outros. A mãe reclama que o filho chega sempre de madrugada, que não toma um rumo na vida. O menino, à espera do café, responde: “É o progresso”.

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Difícil não concordar. Difícil, também, não se colocar do outro lado: a mãe, ou a avó, pertence a outra geração, não compreende a ideia de viver o hoje, o prazer, em encontros nos quais os adolescentes em cena apenas se agarram, beijam-se, e logo trocam de companhia. Tudo é passageiro nesse grande filme de Pialat.

A sensação, à primeira vista, é de pouco aprofundamento. É necessário olhar com calma. Pialat satura a obra de realidade, de leveza, para aos poucos deixar ver o jogo, a forma de seus seres, como todos esses meninos e meninas são, na verdade, diferentes, donos das próprias características, rumo à vida adulta, à desilusão ou a um novo começo.

Crescem? É provável que não, ou que muito pouco. Uma das meninas – que no dia de seu casamento beija outro rapaz por diversão, ou talvez por amor – afirma ter se casado por falta de alternativas. Não quer estudar, não suporta mais a família. Pialat dá vida a um retrato triste da juventude na comuna de Lens, na França.

Essa menina – pequena, loura, incapaz de crescer – chama-se Agnès (Agnès Makowiak). Após brigar com o jovem marido, termina confessando seu amor a outro rapaz, o louro e mulherengo Bernard (Bernard Tronczak). São palavras de dor. “Viver é uma merda”, confessa ela, em outro cômodo, ao lado de uma banheira cheia de enguias.

Bernard, lembra outro menino, no bar em que todos se encontram, é o mais desejado entre eles. Está sempre na companhia de alguma garota. No mesmo local, a jovem Élisabeth (Sabine Haudepin) desfila com calça jeans apertada, jaqueta de couro, batatas fritas na mão. Chama a atenção de outro frequentador, Philippe (Philippe Marlaud).

O novo casal começa a namorar. Pialat deixa ver o que pode ser o início de uma história de amor. Mas para Élisabeth talvez seja apenas a chance de fuga. Em alguns momentos, ela será vista na companhia de seu professor de filosofia. Diz que não consegue organizar as ideias, que não entende o que esse mesmo homem expressa em seu trabalho.

O espectador chega a acreditar que ela poderá ser salva pelas ideias. Pialat apenas acena à possibilidade de mudança, ainda que prefira o caminho real. Ao fim, abre espaço para a viagem de dois rapazes para Paris. Fuga e novo começo. Ao mesmo tempo, a frase que fecha a obra também a abre: os jovens estão de volta à aula de filosofia, enquanto o professor discursa, enquanto a câmera retorna às mesas rasuradas.

A tinta sobre a madeira é o resumo dessas personagens, dessa juventude. A vontade de escapar, de produzir algo para além das palavras do professor, que fala sobre a necessidade de desaprender. Do lado de fora – no bar, nos encontros em suas casas, na praia -, os jovens guiam-se pelos desejos, pela novidade do instante, embebidos pela liberdade.

(Passe ton bac d’abord…, Maurice Pialat, 1978)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Maurice Pialat

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