À beira da estrada, perdidas no mapa

À beira da estrada, postos de combustível são pontos de encontro, de chegada e de partida em O Céu de Suely e Baixio das Bestas. São locais de prostituição e homens anônimos nos filmes do cearense Karim Aïnouz e do pernambucano Cláudio Assis. Ambientes que reproduzem encontros passageiros e impessoais, promiscuidade e decadência.

É em um posto, ainda no início de O Céu de Suely, que chega a protagonista, Hermila (Hermila Guedes), com o filho no colo. Cruza a estrada e espera por sua carona à sombra da estrutura metálica do local. Voltou de São Paulo com a criança e sem o marido, que deverá retornar depois. Os dias passam, ele não vem. Hermila descobre-se sozinha.

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E volta, outras vezes, à beira da estrada, aos espaços do posto de combustível. Lava carros e vende rifas para ganhar algum dinheiro. Observa outra mulher, uma prostituta, descendo e subindo de caminhões. Homens pouco importam. São as mulheres que ganham espaço, sem julgamentos precipitados, nesse belo filme de Aïnouz.

A estrada, com paisagem ao infinito e a lugar algum, oferece sempre uma saída: a certa altura, Hermila vai à rodoviária e pergunta quanto custa a passagem para o lugar mais longe dali. Trata-se de outro ponto do Brasil. Hermila precisa de dinheiro para fugir, para mudar, também para garantir algo melhor ao filho. Seu sucesso, claro, é incerto.

Hermila, certa noite, em conversa com um rapaz, entre beijos sem compromisso, pura curtição, diz que vai se rifar. A brincadeira embalada à bebida ganha corpo: no dia seguinte, ela decide levar a ideia à frente. Torna-se ela própria o produto à beira da estrada, pelo posto, ou pelos bares da cidade: ao ganhador da rifa, uma “noite no paraíso”.

Nessa fase de descobrimento, Hermila envolve-se com outro homem, interpretado pelo sempre ótimo João Miguel, alguém de dor presa aos olhos, ao silêncio, à forma do homem comum. E é nele, mais do que nela, que se vê como é gestado o drama de Aïnouz: pouco a pouco, entre um golpe ou outro, a dor vem à tona, inclui até gestos loucos.

João, ao saber que Hermila está rifando o próprio corpo, tornando-se prostituta, persegue-a e diz estar disposto a comprar todos os números da rifa, inclusive o bilhete premiado. Palavras de desespero, de amor, enfim, do homem que parecia não ter nada. Talvez nem todos estejam dispostos a servir ao papel da personagem passageira.

É no posto de combustível, depois, que Hermila encontra-se com o ganhador da rifa. Um homem qualquer, sem presença frente à câmera. Importa ela, seu inegável mal-estar, seus movimentos mecânicos, o início e o fim de um trabalho em apenas uma noite, a prostituição, igualmente uma amostra de lealdade àqueles que compraram a rifa.

Aïnouz assegura um tom entre delicadeza e raivosidade, nunca deixando a primeira perder para a segunda. É um filme próximo ao melodrama, cuja vida pessoal ao centro não deixa sumir a sociedade ao fundo – seja para punir a protagonista, seja para desejá-la. Em Baixio das Bestas, por outro lado, a impressão é sempre de perda, de raivosidade.

A vítima da vez é a adolescente Auxiliadora (Mariah Teixeira), exposta nua pelo avô aos caminhoneiros que pagam para olhá-la, depois para tocar seu corpo. A menina – nem criança nem mulher adulta – está rendida à pressão do avô inválido, com gesso no pé e bengala. Tal homem, mesmo fraco, impõe a força como um velho coronel autoritário.

O fim de Auxiliadora não será dos melhores. É possível supor desde o início. À beira da estrada, ela, jovem prostituta, toma cerveja com um caminhoneiro. É a nova sensação dos homens que frequentam o espaço. Antes, enquanto vivia com o avô, a menina caminhava por estradas enquanto caminhões lotados de cana-de-açúcar cruzavam seu caminho.

Outras personagens surgem por ali. Rapazes violentos, prostitutas à espera de clientes, boias-frias que ainda resistem ao fechamento das usinas. A certa altura, entre idas ao bordel e estupros, as personagens esbarram-se, revelando um país do qual extraem à força o máximo que podem, quebrado e retorcido como a cana sobre a boca do trabalhador.

Assis, sabem seus fãs, não é inclinado a concessões. Prefere um país verdadeiro, de figuras incorretas, xingamentos, baladas, violência, prostituição com naturalidade. Suas personagens não dão vazão ao apego: falta ali uma Hermila, ou uma Suely, ainda que não demore para o público perceber que algum gesto de compaixão é impossível.

Ambos os filmes são de 2006. Hermila Guedes é protagonista em O Céu de Suely e faz um pequeno papel em Baixio, justamente o de uma prostituta. O primeiro foi filmado em Iguatu, no Ceará; o segundo em Nazaré da Mata, Pernambuco. Cidades diferentes que, à época, representavam na tela um Brasil perdido no mapa, sob o som do forró, do corte da cana, com o movimento de caminhoneiros e prostitutas. Convites à despedida.

(Idem, Karim Aïnouz, 2006)
(Idem, Cláudio Assis, 2006)

Notas:
O Céu de Suely: ★★★★☆
Baixio das Bestas: ★★★☆☆

Foto 1: O Céu de Suely
Foto 2: Baixio das Bestas

Veja também:
Mulheres em metamorfose

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