A Última Missão, de Hal Ashby

A amizade entre o trio de A Última Missão é instável, nem sempre visível. Em situações difíceis de entender, eles travam conflitos entre si, às vezes de maneira irracional, simplesmente porque um discorda do outro, ou apenas para extravasar.

É quase um milagre que o filme de Hal Ashby consiga, por pequenos espaços, ser ainda um filme sobre camaradagem. Em boa parte do tempo, os homens terminam juntos por obrigação e, ironia maior, ao fim anunciam caminhos diferentes.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Pelos Estados Unidos atolados em uma guerra no Vietnã e com parte da população sem otimismo na ação de seus governantes, os marinheiros fazem uma viagem de descobrimento e rebeldia: dois deles levam o terceiro para a prisão, após o mesmo ter roubado 40 dólares de um serviço beneficente da Marinha americana.

Cada um fornece ao espectador algo diferente. O primeiro é Jack Nicholson, como o bruto e falador Buddusky, alguém que pode ser tão odioso quanto humano, tão inconstante quanto seguro. Poucos atores explodem de maneira tão espontânea quanto ele – e poucos sabem ser exagerados sem cair na caricatura.

Em bela sequência, ele grita a um balconista sua função, a do marinheiro armado que deseja ser atendido com doses de cerveja. Nesse país em que os protagonistas passam boa parte do filme em movimento, para fugir do frio, ele precisa gritar para ter o que deseja. E a obra de Ashby é justamente sobre um país mergulhado na frieza.

O segundo é o negro Otis Young, Mulhall, em oposição ao outro: é ele quem leva o espectador – também a missão da dupla – a um ponto de equilíbrio e consciência.

O prisioneiro é o ingênuo Randy Quaid, Meadows, que sequer ficou com os 40 dólares roubados – ainda que tenha confessado o crime. Desajeitado, alto, ele terá oito anos pela frente em uma cadeia militar, mas tem antes sua última semana de liberdade com os novos amigos.

Com roteiro de Robert Towne, a regra desse belo drama de Ashby é controlar as explosões, encontrar graça e drama em excesso em pontos impossíveis, não raro nos momentos banais – como aquele em que Meadows diz a uma mulher que não pode tentar a fuga, já que os companheiros de farda são seus melhores amigos.

Ou o momento em que ele – sob as poucas luzes da fotografia, como em quase todo o filme – pede que a prostituta prolongue o tempo do encontro, para que possa continuar ali, olhando para ela, sem fazer nada senão matar o próprio tempo.

O filme de Ashby é feito de instantes mágicos, simples, possíveis no período da Nova Hollywood, com o cinema livre de autores como Robert Altman, Jerry Schatzberg e o próprio Ashby (que mais tarde faria outros filmes sobre os problemas de seu país, como Amargo Regresso e Muito Além do Jardim).

A impressão é a de que nada acontece em A Última Missão, como nas sequências em que os homens resolvem se trancar em um quarto de hotel e beber sem parar. A missão revela-se inversa à ordem das instituições militarizadas: resulta quase sempre em anarquia, ponto em que a comédia funde-se ao drama.

A viagem leva a diferentes locais. Em uma das paradas, na cidade em que Meadows vivia, os três veem-se à porta da casa do jovem, de olho em seu interior vazio, em sua bagunça. O passado do menino vem à tona. Nenhum deles tem coragem de cruzar a linha. Observam o interior, a possível história por trás dos objetos da mãe de Meadows, a história do menino que agora será sacrificado pela tirania de seus líderes. O trio tenta viver sob o mal-estar desse país frio, impessoal, com tristeza por todos os cantos.

(The Last Detail, Hal Ashby, 1973)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Sete grandes filmes nem sempre lembrados da Nova Hollywood

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s