Pola X, de Leos Carax

O garoto louro, rico, escritor sob pseudônimo, “o mais famoso de sua geração”, sonha com a imagem de uma menina morena, alguém que logo encontrará. Ela persegue-o. Ele deseja saber o que há por trás dessa imagem. Na sequência mais importante de Pola X, a menina enfim revela seu segredo: por uma floresta, à noite, ela diz ser sua irmã.

É também nessa floresta, por alguns minutos, entre alguns poucos cortes, que a câmera de Leos Carax não deixa o casal escapar. A menina relembra seu passado, na casa de idosos, depois na de um homem francês (possivelmente o pai do rapaz, já morto), mais tarde em um país distante que sofreu com o ataque de bombas, talvez com a guerra.

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A menina é, ao mesmo tempo, a refugiada e a irmã. Simboliza o encontro e a perda, o sangue e a distância. Não há garantias de que seja, realmente, a irmã do protagonista. Ainda assim, suas palavras e sua sinceridade, toda transmitida à base de dor inegável, serão suficientes para que ele saia de casa e passe a viver com ela – da riqueza e do conforto à incerteza das ruas.

O garoto deseja encontrar a “verdade”, ou descortinar a “mentira”. Claro que tais noções assumem alguma confusão, ou geram diferentes interpretações. O mais tentador é encarar a vida rica e fechada do castelo como mentira, o ambiente protegido e distante do mundo – dos refugiados, dos becos de Paris ou de qualquer grande cidade.

Em Pola X, Pierre (Guillaume Depardieu) vive com a mãe, a bela Marie (Catherine Deneuve). Ambos se tratam como irmãos. Da grande casa, em sua moto, segue ainda cedo à casa da noiva, a bela e também loura Lucie (Delphine Chuillot). Essa vida de sonhos deixa ver instabilidades, ou estranhezas, esconderijos; é uma vida que esconde segredos.

A mãe talvez seja uma amante. O plano-sequência do início, do jardim à fresta da janela, revela uma mulher deitada na cama após a saída de Pierre. A impressão é que estavam juntos. Não se sabe. Mais tarde, o protagonista ver-se-á envolvido de maneira carnal também com a irmã. Carax filma ambos, na cama, sem ocultar a penetração.

A moça, interpretada por Yekaterina Golubeva, carrega um olhar de revolta e incerteza: expressa toda a instabilidade do mundo caótico, sob bombas, que Pierre deseja invadir. Como outras personagens de Carax, o rapaz é impulsivo, explode com facilidade, é movido pela emoção e não se explica. Pode parecer tolo, ou apenas jovem demais.

À frente, os irmãos transformados em amantes terminam em uma fábrica abandonada. Cresce ali uma sociedade alternativa, com pessoas que convivem entre os espaços do galpão, pelas portas metálicas, tetos abertos, entre galinhas e cavalos. Ao que parece, é uma comunidade que se reinventa a partir de misturas, entre o futuro caótico e o arcaico, entre a arte e a truculência. É ali que Pierre confina-se para escrever.

Seu corpo muda. Ele envelhece rapidamente. Vê-se, logo, com bengala, cabelos longos, barba, óculos. Não é mais o menino angelical de antes. E contra ele insiste em retornar o mundo externo, seu velho mundo: a noiva loura que não o esqueceu e que passa a viver na mesma fábrica abandonada, além do primo efeminado, vivido por Laurent Lucas.

A relação com o primo vai além da amizade. Quando se encontram, ainda no início de Pola X, aproximam as faces, tocam o outro com sensibilidade. Carax deixa ver, de novo, algo a mais, outro entre vários mistérios que circundam esses seres impenetráveis e decididos a fugir do espaço confortável, do grande castelo afastado em que viviam.

(Idem, Leos Carax, 1999)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Leos Carax

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