Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba

O som da torneira aberta, ou das pedras recolhidas do chão, ajuda a compor o suspense. Não se trata do suspense comum, aquele que anuncia um crime, ou no qual se busca a sua solução. O que está em jogo em Para Minha Amada Morta é uma espécie de “suspense social” (a exemplo de outro bom filme brasileiro recente, O Lobo Atrás da Porta).

A água que jorra da torneira e a pedra em contato com o lixo produzem um som inquietante, ao mesmo tempo distante e onipresente: dá a impressão, no trabalho de Aly Muritiba, de algo próximo a explodir. O filme, por sua vez, trata o suspense sempre em fogo baixo, às vezes eleva o tom, e quase sempre prefere a possibilidade ao fato consumado.

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Na trama desse “suspense social”, um policial e fotógrafo descobre que sua companheira falecida tinha um amante. Ela não sobreviveu para lhe revelar. Talvez não devesse, talvez não fosse o caso: talvez aquele romance tenha sido apenas um gesto de fuga, um caso passageiro que não merecia ser trazido à tona. Morreria com ele.

O segredo retorna em algumas fitas de vídeo gravadas pela mulher, guardadas em seu escritório. O marido traído, Fernando (Fernando Alves Pinto), descobre as imagens da relação dela com o amante. São momentos a dois, na cama, de declarações e carícias.

O mundo de Fernando desaba uma segunda vez: tomado pelo instinto policial, ou pelo instinto do homem que deseja entender a traição da qual era vítima sem saber, e sem a mulher viva para se vingar, resta apenas perseguir os passos do amante. E fazer perguntas a si mesmo, o que o silêncio do filme não esconde: quem é ele? Como vive? Com quem vive?

Ou mais: por que a mulher amada – e agora morta – teria escolhido tal homem? A perseguição ao outro faz as questões crescerem na tela: não demora para que o mesmo, o amante, seja revelado. Homem simples, de casa simples, morador em um bairro distante – e inegavelmente simples. Fernando, em Salvador (Lourinelson Vladmir), encontra o que talvez não esperasse.

Pois a amada, não mais viva para dar explicações, escolheu o mais comum dos homens. E, sabe-se mais tarde, o homem que esteve preso, e que ela própria, uma advogada, defendeu. Caso curioso, que assume outras proporções nos pensamentos de Fernando (e que, de novo, o diretor não precisa verbalizar): a amada morta saiu em busca de alguém que talvez pudesse comprar, disposto a ser seu amante.

As suposições são silenciosas. As ações levam a pensar nelas. Fernando, não contente com a ausência de respostas, sai em busca do amante. Mais ainda, descobre que Salvador tem um pequeno cômodo para alugar e, vestido como manda a ocasião, frequenta cultos evangélicos com a mulher e as duas filhas, uma delas adolescente.

A aproximação sempre gera surpresas e revelações nesse chamado “suspense social” com marca nitidamente brasileira, com suas tradições e tipos conhecidos. Fernando e Salvador, como seus parentes vivos, existem aos montes. Por outro lado, a figura enigmática, a amada morta, não está em cena para se explicar. Há apenas sua imagem no vídeo, e a frase que causa dor maior em Fernando, dirigida ao amante: “Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Volta a fita mais de uma vez para escutá-la dizer.

Após alugar a casa dos fundos de Salvador, Fernando pouco a pouco penetra a vida do amante. Descobre detalhes, também a normalidade daquelas pessoas. Chega a mostrar o vídeo para a mulher do outro, o que não leva à separação do casal; e ele custa a revelar a Salvador quem é de verdade nesse jogo feito de silêncios e gestos bruscos, sem violência.

Fernando, ao escolher assistir à vida do outro em posição privilegiada, talvez deseje entender não o homem e aquelas pessoas, mas justamente a mulher morta que não pode se explicar. A escolha não leva a muito longe. O filme carrega mistério, sem a teia do suspense de vingança. Trata, sobretudo, do olhar, de tentar entender, ainda que quase sempre não reste muita coisa.

(Idem, Aly Muritiba, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Divinas Divas, de Leandra Leal

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