O Círculo, de James Ponsoldt

À contramão do filme que aponta aos problemas de um mundo cada vez mais desnudado pelas redes sociais, Emma Watson parece ter saído de uma ficção científica adolescente. Em O Círculo, ela não funciona no centro de uma batalha contra homens malvados que traçam planos para colocar a raça humana sob seu poder – ou no interior de sua nuvem.

O título refere-se a uma empresa de tecnologia nunca bem explicada. Até o fim, o espectador não sabe ao certo como opera essa rede social. E esse talvez seja um problema de filmes sobre mundos virtuais: o que resta ao cineasta é sempre o que pode mostrar, e o que realmente interessa, no cinema, é o material humano.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

À exceção de Tom Hanks, tal material é aqui escasso. O problema ora ou outra se volta à heroína com pouco carisma e humanidade, à forma da adolescente deslumbrada com o emprego na empresa dos sonhos, depois a jovem desiludida e levada a comandar, nos momentos infantis que fecham o filme, a legião de “revolucionários” em busca de liberdade.

E o filme fica ainda mais problemático: sob a direção de James Ponsoldt, O Círculo não tem coragem de tocar na ferida, de mostrar uma personagem decidida a romper com o mal que a cerca. Ao contrário, a Mae de Watson ainda continuará a apoiar, em parte, o que a empresa prega: mostrar tudo, com câmeras, para se chegar a um mundo mais transparente.

Hanks é o rosto à frente da companhia, o aparente gênio com traços de Steve Jobs, o homem “legal” que fala “coisas certas” e é idolatrado pelos jovens da plateia. Ele lança pequenas brincadeiras enquanto expõe seus novos brinquedos tecnológicos e faz o mundo virtual parecer a única saída à tão sonhada democracia plena.

O espaço superior da empresa, em seus campos abertos, jardins, prédios futuristas, leva sempre a pensar no paraíso para adultos que não cresceram muito. A certa altura, contudo, Mae será convidada a conhecer o outro lado: os porões metálicos que servem – e continuarão servindo – para armazenar informações sobre pessoas conectadas à rede.

Não demora para que Mae cruze o caminho do líder. Em situação pouco convincente, ela resolve praticar canoagem à noite, sofre um acidente e é resgatada. Sua vida foi salva graças a alguma câmera ligada em algum lugar próximo a ela. Sua vida passa a servir de exemplo.

A empresa em questão prega as vantagens da vigilância absoluta: será possível salvar pessoas e localizar criminosos, em rede, com extrema facilidade, se todos estiverem dispostos a dividir suas vidas pessoais. Propõe o desejo macabro que, no fundo, já é realidade no mundo atual: grandes empresas de tecnologia faturam alto ao penetrar a vida de seus usuários. No círculo, todos conseguem enxergar todos – menos quem os controla.

(The Circle, James Ponsoldt, 2017)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s