Um Instante de Amor, de Nicole Garcia

Aos olhos dos outros, Gabrielle Rabascal pode estar perto da loucura. Aparenta – aos homens que a observam pela janela, à família, ao professor que tenta seduzir e a quem se oferece – ser alguém apenas em busca de sexo, o que não é o caso. Gabrielle deseja viver uma grande paixão, descobrir seu grande amor.

À medida que deixa o desejo saltar à pele, torna-se incompreendida. Desejo não por qualquer homem, mas por alguns. Ao que parece, homens escolhidos não pela aparência máscula (há vários feitos dessa forma naquela região rural), mas por um toque de paixão, algo especial e que vai além do traço físico em Um Instante de Amor.

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No filme de Nicole Garcia, ela termina casada com um homem que não ama, interpretado por Alex Brendemühl. Por que aceita esse matrimônio sugerido pela mãe (que, por sua vez, acredita que essa pode ser a forma de conter os desejos da filha)? É, ainda que a contragosto, a forma de Gabrielle escapar daquele local, mudar de vida.

A relação com o novo marido é fria. À noite, ele retira dinheiro da gaveta e vai a algum prostíbulo próximo para saciar seus desejos. Ele, vale salientar, respeita a distância de Gabrielle, como se entendesse que não pode ser o grande amor que ela deseja. E a mulher compreende o desejo dele: veste-se como prostituta e se entrega ao próprio marido, não sem receber o dinheiro que seria dado a outra qualquer.

O filme toma outro rumo quando Gabrielle é internada para tratar problemas renais em um hospital afastado. Deverá permanecer ali por algumas semanas. Além do restaurante, a moça tenta circular pelos corredores na companhia de uma camareira. É quando vê, pelo espaço da porta, um tenente acamado, doente, belo e perfeito para servir à paixão dessa mulher: um homem forte à beira da morte.

E homens fortes, nessas situações, parecem mais delicados. Gabrielle, sob o rosto curioso e sempre em busca de descobertas de Marion Cotillard, retorna mais vezes àquele quarto, àquela visão. Aproxima-se mais, à noite, e chega a abraçá-lo. Apaixona-se. Mais tarde, o rapaz é transferido para outro hospital, o que desestabiliza Gabrielle.

Seu retorno marca outra mudança: a heroína passa a ver ali uma possibilidade de amor concreto, também de fuga. Os dias são poucos. Há uma sequência em que os amantes caminham e conversam pela floresta. Ao expor seu desejo, durante a caminhada, Gabrielle é repelida: o amante diz que ela é casada e que a traição é pecado.

Um Instante de Amor, a partir da obra de Milena Agus, sugere que a paixão em excesso pode levar a uma espécie de esquizofrenia, ou à necessidade de se refugiar em pura imaginação. E o filho de Gabrielle, sugere o filme, seria um desejo profundo, expresso pelo momento em que o amante leva a boca ao seio da protagonista.

De um lado está o amante distante, o que faz de Louis Garrel a escolha perfeita para a personagem. Do outro o marido silencioso, de jeito quadrado e inegável força, que transfere a mulher para o mundo real, sem emoção, à qual estava acostumada em suas andanças quando jovem, em busca de alguém que transpirasse paixão.

O filme peca ao explicar tanto, ao expor os contornos da protagonista. Seu choque com a realidade, no mesmo encerramento, é o que há de mais triste: a Gabrielle sobra apenas a vida que sempre viveu, à qual, por necessidade, precisou lançar um pouco de imaginação. É a forma encontrada para sobreviver.

(Mal de pierres, Nicole Garcia, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Aliados, de Robert Zemeckis

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