Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins

O melhor de Mulher-Maravilha encontra-se em seu miolo. Nem nos primeiros momentos, à beira da cafonice, no treinamento da heroína; nem no encerramento que, de novo, reduz-se à briga fantasiosa entre deuses, artificial e sem emoção. Mesmo com momentos inspirados, não escapa à vala comum a filmes do tipo.

Sobre a abertura: a futura Mulher-Maravilha, Diana, vive em um reino de mulheres, de paraíso à vista (mar azul e infinito) e sol constante. É preparada por outras belas guerreiras, sob os olhos da mãe, para a guerra que, sabe o espectador, é inevitável. O paraíso logo rui e a moça é obrigada a migrar ao mundo real.

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O encerramento restitui a membrana do início, o mundo abertamente mágico, o surgimento de um deus que se assume vilão: a guerra que sempre esteve por lá, e que continuaria para sempre, ora ou outra dando as caras, ganha então um corpo. E o filme de Patty Jenkins prefere o contorno digital a qualquer sinal de emoção verdadeira.

A atriz que interpreta a Mulher-Maravilha, já revelada em Batman vs. Superman, é Gal Gadot. Seu rosto arredondado e sorriso infantil conferem-lhe jeito irresistível. Não se duvida que tenha saído de um paraíso escondido no oceano, e que esteve por muito tempo sob uma membrana, protegida, em um reino de bondade e justiça.

Não se duvida que Gadot possa ser a Mulher-Maravilha que nunca de dobrará ao cinismo, que descobrirá que a guerra, mais do que em um monstro metálico, reside nas ações humanas, no universo borrado das pessoas de carne e osso. Pois seu rosto infantil coloca-a justamente no ponto desejado, longe do realismo e da dubiedade.

É um dos problemas dos filmes de super-heróis da atualidade – ou mesmo dos mais antigos. Christopher Reeve, o eterno Superman, também tinha um pouco dessa forma virgem, esse jeito ingênuo e desavisado que o tornava, muito mais que Henry Cavill, alguém talhado para assegurar os limites do universo mágico.

Enquanto, nas trincheiras, os homens avolumam-se para apenas continuar ali, atirando ao outro lado ao mesmo tempo em que esperam o armistício, a mulher tem a resposta prática: libera do buraco escuro sua força – e ira – à medida que retorna ao alto, caminha pela lama e, com seu escudo e braceletes, defende-se dos tiros.

Mais que heroína, no filme de Patty Jenkins a Mulher-Maravilha assegura o lugar da mulher na guerra, ou na posição do homem. A mulher, antes, existia apenas no belo universo em que se voltava a si mesma, às outras, distante dos homens. Nesse filme bobo, ela vivia protegida sob a já citada membrana, em seu paraíso.

Sua forma ingênua fica cada vez mais saliente após um homem romper essa membrana – mesmo que o roteiro tente mostrar que ela sabe muito sobre tudo, que leu milhares de livros para confrontar o sexo oposto. Não convence. A Mulher-Maravilha é alguém distante das sombras do lado de fora, da neblina atravessada pelos navios alemães que logo penetram a mesma membrana.

A heroína descobre sua missão: passar para o outro lado e terminar a guerra. Encontrar a personificação da mesma, Ares, o deus expulso por Zeus e que deve ser confrontado, ao fim, por uma amazona. Contra o homem maldoso, desmiolado, que provoca a guerra (ou o deus escondido na forma masculina), a mulher leva a paz.

No mundo real, à exceção da Mulher-Maravilha, qualquer mulher é pequena e secundária, até mesmo a cientista vilã de rosto desfigurado – que faz pensar em Olhos Sem Rosto e, por consequência, em A Pele que Habito. Tal monstruosidade é justamente o contraponto à angelical Gadot, a menina que não se conforma com os adultos malfeitos e, veja só, termina apaixonada por um deles.

(Wonder Woman, Patty Jenkins, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Batman vs Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder

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