Joaquim, de Marcelo Gomes

Até certo ponto, Joaquim José da Silva Xavier mais parece um explorador frustrado, menos um futuro revolucionário. Descobriu tesouros no fundo de um rio e não teve direito a eles. As pedras verdes e brilhantes que retira das águas, entre as rochas, ficariam para a coroa portuguesa. A essa altura, Joaquim sente-se explorado.

O diretor Marcelo Gomes logo o encaminha à transformação, à tomada de consciência. O filme termina com o homem a explodir, faminto, com a boca cheia, devorando a carne aos olhos de uma classe privilegiada que, como ele, queria a saída dos portugueses. Toda a riqueza aos locais, desejavam – a começar por Joaquim.

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Antes da personagem histórica – e, sobretudo, do filme histórico – há um universo de sons e figuras estranhas, de sujeira e desleixo. A bela fotografia de Pierre de Kerchove salienta as imperfeições, esse realismo das fardas sujas, da escrava que busca piolhos entre os cabelos longos do protagonista, o futuro Tiradentes.

Gomes aposta no tempo suspenso, no gotejar de características que formam a personagem. Ainda que a passagem do explorador ao homem consciente da necessidade de revolução não convença por completo, Joaquim hipnotiza com a negação do típico filme histórico calcado em figuras míticas, falas pomposas, seres limpos. Retira algo de A Última Ceia, o grande filme sobre escravidão de Tomás Gutiérrez Alea.

No filme do cubano, as cabeças são expostas no encerramento; no de Gomes, a de Joaquim é exibida ainda na abertura, com a narração que logo subverte a ideia do herói tão explorada em anos de História, em sala de aula, a ecoar o mito que deixava escapar o homem: a narração de alguém que confessa sua derrota, sob as partículas de água da chuva arremessadas à lente. O efeito indica o que vem a seguir.

O filme começa com um Joaquim (Júlio Machado) selvagem (e não termina muito diferente) entre mato, bois e escravos, entre cercas, à espera de alguma viagem e de uma promoção, enquanto se relaciona com a escrava Preta (Isabél Zuaa).

Uma escrava – e uma mulher – será a responsável pela transformação do protagonista. Não deixa de ser curioso. A atração física e a troca de olhares, a aproximação ao corpo, ocultam o amor de Joaquim pela mulher. E ele, não contente com o corpo que só toma às vezes, não sendo diferente de outros homens, deseja então comprá-la.

O dono não quer vender. A escrava é abusada. Em uma cena forte, Gomes filma o ato como se um animal estivesse sobre um cadáver. Mais tarde, ela mata o abusador e foge. Descobre antes de Joaquim a necessidade da revolta ao se unir a um quilombo. Detalhes e palavras a mais são desnecessários para resumir casos e mudanças.

Joaquim é sobre uma personagem suja, faminta e indesejável, obra sensorial a partir dos ambientes que lhe dão corpo. Longe de decifrar Tiradentes. As criações de Gomes – como os homens em estranha amizade de Cinema, Aspirinas e Urubus, ou a Verônica que termina em frente ao oceano, sozinha, em Era uma Vez Eu, Verônica – não se deixam penetrar facilmente. Seu Joaquim é um ser errante, alguém pronto para devorar a carne e ser devorado. Ou decapitado.

(Idem, Marcelo Gomes, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Entrevista: Júlio Machado

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