As Montanhas Se Separam, de Jia Zhangke

Inicia com um grupo de pessoas dançando “Go West”, da dupla britânica Pet Shop Boys. Termina com a mesma canção, com a mulher sozinha que ainda dança sob a neve. Mais de 20 anos entre um momento e outro em As Montanhas Se Separam.

A passagem do tempo escancara as diferenças nesse belo filme de Jia Zhangke, novamente a meditar sobre as transformações de seu país: antes os chineses dançavam felizes ao som da música ocidental, como se novos tempos tivessem chegado, e depois se veem isolados, em um fim que talvez não reserve muitas esperanças.

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A obra é dividida em três partes. Personagens de um tempo retornam em outro, sem que haja dependência entre histórias. Na primeira, passada em 1999, Shen Tao (Tao Zhao) vive entre dois homens, dois mundos: o moderno e capitalista Zhang Jinsheng (Yi Zhang) e o trabalhador de minas de carvão Liang Jangjung (Jing Dong Liang).

Não é possível ter acesso aos sentimentos de Tao. Como se espera, ela prefere o homem moderno e sedutor, mesmo com seus problemas à vista. A escolha leva o filme aos conflitos seguintes, também aos contornos de um melodrama moderno.

A segunda parte lança o espectador a 2014, ao tempo da produção de As Montanhas Se Separam. Tao está separada e não vive com o filho pequeno. É a mais bela das três partes. Em um momento mágico, ela e a criança com quem pouco conviveu se veem na mesma estação de trem em que o pai da protagonista morreu.

A primeira parte marca a união, ou a esperança de um país que renasce sob o sinal dos jovens diferentes, dos relacionamentos estranhos e quase sempre inconfessos. A segunda mostra as consequências, as separações, o velho homem que morre e é amparado – espiritualmente – pelos monges naquela estação de trem.

Ao fim, na terceira parte, Zhangke leva a um futuro não tão distante. A história acompanha o filho de Tao, o filho que pouco se lembra da mãe (interpretado por Zijian Dong). O terceiro ato marca a total ruptura: com o país (o menino vive na Austrália), com o relacionamento socialmente aceito (ele apaixona-se por uma mulher mais velha, a professora vivida por Sylvia Chang) e com a língua (ele não fala o mandarim).

O título refere-se à ruptura das personagens e do país em que cresceram. Algumas rápidas, outras lentas. Entre saltos no tempo, algo não muda. E o diretor, felizmente, não apela aos reencontros esperados. Prefere personagens em transformação, cada vez mais distantes e cada vez mais conscientes do que as aproxima.

Zhangke já era um diretor com certo prestígio internacional no fim dos anos 90. Seu longa-metragem de estreia, Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteira, de 1997, mostra as andanças de um rapaz desajustado, um pequeno bandido, por ambientes urbanos em transformação. Ao fundo se ergue um novo país. E ele próprio é o retrato da ruptura.

Mas o ritmo do cinema de Zhangke era outro, e continuaria a ser nos filmes seguintes. Os planos eram mais longos, o tempo era suspenso. A ficção nunca renunciava à realidade, ainda que se nutrisse dela o tempo todo, a esbarrar no documentário.

Basta pensar nas longas passagens e na aparente calmaria de Em Busca da Vida, ao mesmo tempo em suas ousadias visuais. A certa altura, uma grande nave brota de um antigo prédio chinês, sinalizando as transformações bruscas – as mais bruscas possíveis. Ou mesmo o instante em que a grande chinesa ponte é iluminada aos olhos de todos.

As Montanhas Se Separam, como o anterior Um Toque de Pecado, retorna às consequências dessa China transformada, mas, diferente de Xiao Wu e Em Busca da Vida, sua forma aproxima-se do drama ocidental. O que está à frente – as relações humanas, os dramas particulares – passa a ter mais destaque. O fundo – a sociedade, os efeitos do “progresso” – se não fogem totalmente se apequenam. Rupturas à parte, não se nega a potência do filme e sua capacidade de encantar.

(Shan he gu ren, Jia Zhangke, 2015)

Nota: ★★★★☆

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