Classe Operária, de Jerzy Skolimowski

O homem que raspa os dedos no banco, preso para fora de sua casa provisória, na Inglaterra, é alguém solitário. Conta apenas com suas lembranças e consciência – e o filme, Classe Operária, é a história de sua consciência e obstinação, nos dias em que ficou em outro país, a trabalho, para reformar a casa de seu chefe.

Ele é trancado para fora dela, a certa altura, após usar o dinheiro dos três companheiros poloneses, o único dinheiro que possuem para garantir o aluguel de uma máquina a ser utilizada na obra. Os outros, com raiva, decidem fechar a porta. A essa altura, Nowak (Jeremy Irons) percebe que perdeu o controle sobre seus funcionários.

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Único a falar inglês entre eles nesse grande filme de Jerzy Skolimowski, Nowak volta-se para dentro: o filme não poderia ser feito de outra forma senão à base de suas narrações, de seu pensamento, à medida que a personagem faz o público compreender, pouco a pouco, por que aqueles dias de trabalho duro são tão importantes.

No fundo, a reforma da casa inglesa não tem importância alguma para o filme. Importa a missão à qual o protagonista é designado, a maneira como lida com sua consciência para terminar talvez o único trabalho importante que ganhou na vida, ou a única vez em que teve de liderar homens para determinada empreitada.

O título brasileiro não se justifica: a classe em questão é menos importante que a missão de um homem só, e essa classe – nos quatro homens pobres e trabalhadores em cena – não é colocada ao centro do filme. O roteiro, escrito pelo próprio Skolimowski, oferece o esforço individual. Seu protagonista conta apenas com si mesmo, com palavras internas, com a companhia da foto da namorada polonesa.

Vê-se obrigado a roubar uma bicicleta e, seguidas vezes, um supermercado. Bem vestido, destoa de qualquer pequeno marginal. Sua miséria – ainda que sem exageros – é dividida apenas com o espectador, que assiste aos seus movimentos, com uma bicicleta furtada, em busca de materiais para a obra e comida para o grupo.

Como em seus outros filmes, Skolimowski não cede nunca ao sentimentalismo, não tenta agradar o público com o protagonista correto. Seu cinema é o do acaso e da imperfeição, no qual um louco precisa criar uma história para ganhar superpoderes e matar os outros – como se viu no anterior Estranho Poder de Matar.

Nesse cinema, os homens não raro convivem com demônios, sozinhos, presos a algum delírio ou alguma forma de escapar do universo real ao qual são confinados – como se vê na sequência em que Nowak quebra a televisão após acreditar, pelo reflexo da tela, que a imagem de sua namorada polonesa está se mexendo e flertando com ele.

Fica perto de ser descoberto, mais de uma vez, nos furtos que pratica no mercado. Cria suas próprias formas de aplicar o crime, ao fingir que esquece a luva no local ou ao utilizar notas antigas como se fossem provas de novas compras. Com a incrível interpretação de Irons, o espectador logo entende que nada – nem a moralidade nem a consciência de classe – está à frente de sua missão: resistir aos dias como imigrante na Inglaterra e terminar a obra na casa do patrão que nunca aparece.

Em narrações, ele confessa que o valor pago aos poloneses pelos dias de reforma é muito inferior ao que seria pago aos ingleses. Consciente da exploração, do pouco valor da moeda de seu país e de seu aprisionamento (o contato telefônico e os voos para a Polônia são cancelados devido a conflitos políticos no país comunista), Nowak prova ter um pouco do material que forjam os loucos, ou apenas os obstinados.

(Moonlighting, Jerzy Skolimowski, 1982)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Jonathan Demme (1944-2017)

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