Estranho Poder de Matar, de Jerzy Skolimowski

Segundo a personagem de Alan Bates, todas as religiões devem responder a mesma pergunta: “o homem possui uma alma?”. E em seguida vai além: “se ela existe, onde ele a guarda?”. Tais questões ganham sentido em meio às situações bizarras de Estranho Poder de Matar, sobre um homem que acredita ter poderes mágicos.

A história, contada por ele mesmo, provavelmente um louco que assiste a um jogo de críquete, leva ao casal central, Anthony (John Hurt) e Rachel (Susannah York), que vive em uma pequena cidade próxima das dunas e do oceano, que possui um belo cão de pelugem clara e uma casa de fachada simples e convidativa.

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O homem estranho de Bates é Charles Crossley. Durante a partida de críquete, desenrolada no espaço externo e verde de um hospital psiquiátrico, ele conta como conheceu o casal (não por acaso, Hurt e York surgem no mesmo hospital, no início e no desfecho) e como passou alguns dias na agradável casa de ambos.

A história é cheia de situações estranhas, para não dizer bizarras: o visitante, quase uma caricatura do vampiro perseguidor e charmoso, explica para suas vítimas que viveu um tempo na Austrália, entre os aborígines, e que teve de matar os próprios filhos – como permitia a cultura local – antes de ir embora do país distante.

Conta também que adquiriu o poder de matar com seu grito forte, um explosão de som que a certa altura será revelada, entre as mesmas dunas, à personagem de Hurt. Nessa história contada por um louco, o diretor Jerzy Skolimowski mostra que o medo é sempre maior que a fé: prestes a conhecer o poderoso grito do visitante, Anthony prefere proteger os ouvidos e, por consequência, não arriscar a própria vida.

A personagem de Hurt havia declarado que toda fé não se baseia em outra coisa senão na especulação. O homem seria levado à fé em sua incerteza sobre o destino da própria alma. Nessa história de um louco que crê ter poderes especiais, que assiste a um jogo de críquete, repousa a discussão sobre desafiar crenças estabelecidas. Segundo Skolimowski, o homem não acredita no sobrenatural até encontrá-lo.

O filme é desafiador e, sob o olhar do homem louco, leva a caminhos diversos, com suas regras próprias. Um tipo de cinema que não se faz mais, cuja aparência bizarra não produz espíritos ou seres fantásticos, mas pessoas de carne e osso. Bates, Hurt e York são sempre palpáveis, comuns, em personagens que lançam o público ao inimaginável enquanto não perdem a aproximação física e o contato com algo real.

Na parte final, enquanto os loucos encerram o jogo de críquete no hospital psiquiátrico, sob a chuva forte, o grito do homem místico confunde-se com um raio do céu. Essa sequência reforça que a vida real pode ser tão estranha quanto as histórias de alguém que acredita no sobrenatural, mas sem a resposta à pergunta que as religiões, segundo ele, continuam a fazer: “o homem possui uma alma?”.

O grito de Skolimowski talvez seja uma metáfora do desespero de um homem perdido no mundo, alguém que matou os próprios filhos e retornou para atormentar – e quebrar a ordem – do casal perfeito que não consegue ter filhos. Ou apenas uma amostra de que a criatividade de um louco não encontra limites. Ela grita, explode e mata.

(The Shout, Jerzy Skolimowski, 1978)

Nota: ★★★★☆

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