Ato Final, de Jerzy Skolimowski

Com as palavras erradas, o jovem protagonista de Ato Final recorre ao corpo. Em boa parte do tempo, corre e se contorce para tentar provar algo à menina que ama, Susan (Jane Asher), sua parceria de trabalho em uma casa de banhos. Esses sentimentos soam estranhos entre os sinais de libertinagem da Swinging London.

Os sinais são evidentes, o sentimento é preso. O filme todo se desenvolve a partir desse conflito, ou dessa diferença, e leva ao garoto inexperiente, um pouco abobalhado, tramando situações para evitar que a amada termina nos braços de outros homens mais velhos. A juventude é desajeitada e não menos verdadeira.

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O menino corre à parte, pouco ou nada consciente de seu tempo: ele quer apenas viver, estar com a menina que ama e é feito de pura emoção. Ele é Mike, levado ao primeiro emprego nos instantes iniciais, à casa de banhos com paredes um pouco deterioradas, frequentada por homens e mulheres. O local mescla encontros sexuais ao olhar desconfiado de alguns, ao gerente que pede para ser chamado de “senhor”.

Vivido por John Moulder-Brown, Mike é magro, tem o cabelo avolumado e a franja à frente dos olhos. Revela suas fraquezas ainda no início, enquanto foge das meninas ou das mulheres mais velhas, as clientes que tentam atraí-lo. Em um momento engraçado, uma mulher corpulenta tenta forçá-lo a fazer sexo com ela, ao mesmo tempo em que o magricela, encurralado, busca meios para escapar.

A maneira adolescente e um pouco engraçada – maneira que tomaria o cinema americano cômico dos anos 80, com seus jovens atolados em descobertas sexuais e problemas relacionados ao ato – encontra, aos poucos, a realidade. O diretor polonês Jerzy Skolimowski não retira a ingenuidade do jovem protagonista, o que torna sua jornada ainda mais triste. No fundo, o menino apenas deseja fazer parte.

E essa mesma busca, entre tantos acidentes, dá errado a cada nova tentativa, a cada aventura no rastro da menina que trabalha com shows de dança e mantém diversos companheiros. Entre eles estão um professor de natação e um funcionário da casa de banhos, além de seu noivo, que a presenteia com uma aliança cara.

A presença do sangue sobre a bicicleta, nos créditos, dá a ideia rompimento. E as mudanças não chegam sem dor. Enquanto persegue Susan, Mike termina em um cinema no qual se assiste a um “filme adulto”, ou um “pornô de arte” típico da época: um filme que representa justamente o contrário à obra de Skolimowski, no qual se tenta explicar o desejo sexual (ou sua falta), no qual o erotismo parece brincadeira.

É nessa sala de cinema que Mike toca o corpo de Susan. Após repeli-lo, ela inesperadamente retornará ao garoto com um beijo. O suficiente para que ele vibre e tenha certeza de que a ama. E o suficiente para que continue a criar obstáculos para que a moça não tenha novos encontros com companheiros de ocasião.

O menino descobre o cinema adulto, a casa de shows, uma prostituta com gesso na perna que se insinua e todo um ambiente de repentina libertinagem – nos tempos da minissaia e do rock. Enquanto tenta se aproximar de Susan, Mike não consegue – ou talvez não deseje – fazer parte desse movimento. Sem palavras a ceder, e sem as palavras dela sobre a experiência sexual de ambos, ele apela à violência.

Anos antes, em Le Départ, o cinema de Skolimowski já ocultava um universo cruel, sob a aparência de brincadeiras e seres livres. Recorria também à personagem ingênua – com o rosto da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud – para contar a história de um rapaz apaixonado por carros e velocidade, em uma aventura com vários tropeços, furtos, brigas no trânsito e encontros amorosos. Um pouco como Mike, alguém que não se integra ao meio em que vive, sem muito poder sobre as palavras.

(Deep End, Jerzy Skolimowski, 1970)

Nota: ★★★★☆

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