Locke, de Steven Knight

Boa parte de Locke prende-se às expressões do homem que dirige à noite, sozinho, sem parar. O espectador continuará com ele o filme todo, no carro, à beira do imobilismo. Depende assim de suas menores reações, do talento do ator em questão.

Tom Hardy conduz lentamente ao seu interior. O filme joga as situações aos poucos, com naturalidade. Não demora a revelar o drama: ele, Ivan Locke, deixou o trabalho para encontrar uma mulher com quem passou uma noite e que dará à luz um filho seu.

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Com pouco se sabe muito: são momentos importantes para sua vida, dos quais se vê alguém transformado. A estrada tem sua simbologia, claro, com o homem em uma viagem transformadora, tendo de revelar o caso adúltero à mulher, por telefone.

Como se não bastasse, Ivan terá de lidar com outras pessoas, sempre ao telefone, a compor esse filme de uma personagem em cena e vários dramas simultâneos: todas existem em um mesmo universo diegético, mas apenas uma é levada a mostrar o rosto e as expressões, e para apenas uma convergem todos os problemas.

Parte do interesse gerado pelo filme de Steven Knight vem justamente da necessidade de imaginar quem são as pessoas do outro lado da linha e que não param de procurar pelo mesmo homem, na mesma noite decisiva. Ivan fala com todos, tenta resolver problemas, tomar decisões sobre o parto do filho, sobre o trabalho que abandonou. Compra briga com representantes de sua empresa, perde o emprego enquanto dirige.

A vida transforma-se em tempo minúsculo e a história é contada em tempo real. As luzes externas compõem o clima e cortam o rosto da personagem – entre o sofrimento e a necessidade de cumprir sua missão, ao longo daquele caminho, como um ato de fé.

Define-se assim: missão. Ou prova de força. Ivan precisa provar ao pai morto – talvez presente em espírito, no banco de trás – que pode assumir o novo filho e não ser uma completa decepção (ainda que não exista afeto algum entre ele e a mãe da criança prestes a nascer). O protagonista, sabe-se mais tarde, foi abandonado pelo pai. Seu drama ganha novos contornos enquanto Hardy brilha em fúria e monólogos.

O motorista decide salvar a vida de alguém ao longo dessa noite. Decide que a criança prestes a nascer não sofrerá com a ausência do pai. Respira fundo ao falar para a mulher sobre o outro filho, e escuta as lamentações e as lágrimas da mesma. Chora pouco, depois, em outro momento profundo e inspirador de Locke.

O trabalho de Knight questiona o espectador sobre a necessidade de virar o jogo, de aceitar o caminho. Preso em um quadrado metálico, cercado pela tecnologia, Ivan fica entre o controlador e o obsessivo, sincero o suficiente para fazer doer.

(Idem, Steven Knight, 2013)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Para Sempre Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland

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