Fátima, de Philippe Faucon

A personagem-título é uma mulher isolada: não tem a atenção da filha mais jovem, uma adolescente rebelde, nem a da filha mais velha, que acabou de se mudar e estuda medicina. É vista sozinha diversas vezes, com alguma distância, em movimento, em instantes que a recobrem de tristeza sem qualquer esforço.

Interpretada por Soria Zeroual, Fátima luta para que as filhas não sejam totalmente tragadas aos costumes do mundo ocidental, ainda que em vão. Reclama quando a mais nova usa roupas que expõem partes do corpo, ou quando a mais velha não teria cumprimentado uma vizinha, também mulçumana, no transporte público.

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São pequenas situações que pouco a pouco recheiam o drama desse filme sem rodeios e realista, dirigido pelo cineasta Philippe Faucon. Sua visão humanizada da comunidade mulçumana – não totalmente dentro nem totalmente à parte da sociedade francesa – não vai além de pequenos choques cotidianos, como na sequência em que Fátima tenta conversar com a mãe de uma amiga de sua filha, no supermercado, e é ignorada.

A protagonista trabalha como faxineira em diferentes locais. Sai de casa cedo e chega tarde. Vende ouro para dar o dinheiro à filha mais velha e, mais de uma vez, precisa cobrar e confrontar a mais nova quando esta não apresenta o comportamento desejado na escola, ou quando falta às aulas e recebe notas baixas.

Fátima concentra o drama, o olhar perdido, frio, e sozinha resolve escrever sobre seus problemas. Descobre, mais tarde, uma médica decidida a ouvi-la. E confessa que sua dor não é apenas física, não apenas localizada no braço que machucou após sofrer uma queda na escada, em um de seus trabalhos. São pesadelos que lhe causam a dor.

Sobretudo, e sem que seja necessário explicar tanto, os pesadelos estão ligados ao sentimento de ter fracassado em sua luta. É o sentimento, diz Faucon, do imigrante ao qual restam somente trabalhos secundários em um país de poucas cores, ao som das máquinas e do transporte que, todo dia, ainda cedo, recolhe mulheres como Fátima.

Tal drama, é verdade, já foi mostrado outras várias vezes: o da grande mãe que luta para dar tudo às filhas e termina repelida. Mas o filme de Faucon tem uma energia que lhe confere algo a mais, uma série de pequenas situações encadeadas entre elipses, sem recorrer a explicações excessivas. O tempo traz algumas mudanças e deixa tudo um pouco como antes: enquanto uma das filhas é aprovada na universidade, a outra não mudou nada desde o início. A luta de Fátima, ao fim, está longe de terminar.

(Fatima, Philippe Faucon, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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