O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Løve

As mudanças que abatem Nathalie Chazeaux (Isabelle Huppert) escapam às suas forças. São mudanças que chegam pelos outros, pelas ações do tempo, nem tanto pelo acaso. Os filhos crescem, o marido descobre outra mulher e se muda, a mãe morre. Pouco a pouco, Nathalie vê-se mais sozinha, mais apegada às pequenas coisas.

Nem mesmo o gato da mãe falecida (Edith Scob) será o animal de estimação escolhido em O Que Está Por Vir: a protagonista simplesmente o herda e precisa viver com o bicho, entre viagens e retornos para casa. O gato estará por ali, a se esconder e escapar, a observá-la, uma companhia possível a quem deverá aprender a viver só.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Nathalie é professora de filosofia. A ação de seus alunos mais jovens, que não deixam os professores entrarem na escola durante uma greve, não a empolga; em contrapartida, as ideias de um aluno mais velho, seu protegido, Fabien (Roman Kolinka), parecem-lhe excitantes. Trocam livros e, mais tarde, a protagonista passa a frequentar o sítio em que o rapaz vive com outros amigos, espécie de sociedade alternativa.

Mas, a essa altura, é evidente a distância entre Nathalie e o que a envolve: a vida dos jovens não faz mais tanto sentido e, com frequência, ela manterá a vida em família, sob os sinais da família tradicional, justo ela que, na juventude, viu-se atraída pelo comunismo e pela ideia de revolução. Aos alunos, a revolução – em pequenas ou grandes ações – ainda é possível; para Nathalie, pertence ao passado.

A constatação da passagem do tempo, para a diretora Mia Hansen-Løve, é a via de construção, sem pressa, da personagem. Pelo cotidiano, pelas perdas e pela capacidade de expressar a dor em poucos gestos o espectador descobre uma grande jornada.

No início, a família está formada, redonda, em viagem. Visita, em clima frio, o túmulo à beira-mar de François-René de Chateaubriand, na Bretanha. Uma placa pede silêncio em nome do mesmo escritor, que desejava ouvir, ainda depois de morto, o barulho do mar. Nathalie e o marido Heinz (André Marcon) observam o túmulo quando são abordados pela filha pequena, que os avisa sobre a elevação da maré.

O aviso pequeno e passageiro anuncia as cisões seguintes. E o mesmo túmulo, observado do alto e em plano geral, divide espaço com o oceano em movimento. A oposição entre a vida e a morte é clara. Oposição que, mesmo silenciosa, será recorrente na jornada da protagonista, entre tudo o que parece morrer aos seus olhos (a família, a mãe) e tudo o que ela mantém vivo com força descomunal.

Expulsa de sua antiga vida, Nathalie talvez não encontre uma nova até o fim. A sequência final é exemplar e resume sua condição: ela continua a embalar a criança, seu neto, enquanto a câmera afasta-se, foge, à medida que duas gerações abrem espaço para a casa e seus móveis, para o espaço íntimo e construído com o tempo.

O Que Está Por Vir ignora os revolucionários de fora, os jovens enérgicos, grevistas e radicais (sem que sejam descartados por completo); prefere a vida íntima de uma mulher que busca – e nem sempre consegue – se reinventar, alguém que chora para sorrir em seguida, ou que chora e sorri ao mesmo tempo. Alguém verdadeira.

(L’avenir, Mia Hansen-Løve, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Elle, de Paul Verhoeven

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s