O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström

Procurado pelo furto de uma ovelha, o estranho logo conquista a dona de uma fazenda, a viúva, e ambos fogem para viver nas montanhas. Só podem viver assim, um pouco como animais, entre rochas, cachoeiras, sob o risco de uma visita inesperada.

São as linhas gerais de O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström. Sua história de amor, em tons líricos e naturalistas, evolui de uma vida estável (a dela) para uma vida em risco (a dois), mais tarde para uma vida em que os amantes chegam perto de se odiar quando passam fome em meio à neve, isolados, próximos da morte.

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O estranho é interpretado pelo próprio Sjöström. Caminha entre montanhas quando assiste a um crime semelhante ao seu: um homem furta a lã de dois carneiros de uma fazenda. O criminoso investe contra o estranho, que ainda será capaz de perdoá-lo. Apenas pede a indicação de uma fazenda nas redondezas, um local para trabalhar.

Termina no espaço de Halla (Edith Erastoff), às vezes mais velha do que representa, às vezes mais nova do que parece. Halla oferece trabalho ao estranho. Encanta-se. Mas tem outro pretendente, sobre o qual não esboça emoções: seu cunhado, o xerife Björn (Nils Aréhn), que descobre o passado do estranho e passa a persegui-lo.

As linhas gerais, a aparência comum, logo dão vez a um filme grandioso: Sjöström não trata a câmera apenas como portadora do registro e suas imagens estão longe do efeito teatral. O cineasta filma em ambientes reais, investe em faces de medo e descoberta, dá vida a sequências pulsantes nas quais as personagens degradam-se.

É sobre uma sociedade que se desfaz em suas próprias leis, em sua perseguição. Curioso notar que uma das sequências-chave ocorre justamente na Igreja, quando um homem reconhece o estranho como criminoso e revela seu nome verdadeiro ao delegado.

Quando a identidade atrapalha o amor entre ele e Halla, o passado do protagonista vem à tona: com frio e uma família com fome, teve de roubar a ovelha de um pastor. O crime choca-se com a necessidade física, com a miséria. Logo, a organização social é questionada: seria o homem ao centro realmente um criminoso?

Halla sucumbe ao amor, deixa a fazenda e foge com o estranho. O filme fica ainda melhor. O casal organiza-se, por anos, e encontra uma vida em equilíbrio. É o que indicam algumas poucas imagens desse pequeno grande filme em sete capítulos. O casal também passa a viver à beira de um abismo, resumo do que vem pela frente.

A certa altura, retorna o homem que o estranho encontrou no início, o ladrão de lã. Passa alguns dias com o casal nas montanhas. Ele, Arnes (John Ekman), é outro que não resiste à beleza dela, à forma física que expõe enquanto lava roupas, e se deixa levar pelos desejos. O visitante tenta beijá-la e é repelido.

Ela explica ao visitante o que a levou até ali, o que a levou a se sujeitar àquela vida distante, entre montanhas: “Eu dei tudo para meu marido, até minha consciência”. O amor sobrepõe-se às leis, às organizações, ao passo que esses criminosos e pecadores encontram outra forma de vida. “Nossa lei é o amor”, ela declara, ao fim.

O casal descobre que, mesmo distante e em aparente equilíbrio, continua vítima dos desejos e necessidades físicas. Justamente por isso, talvez. Eles podem se aproximar dos animais, podem questionar o amor que os une. Após perderem a filha e confrontarem o delegado e seus homens, terminam em outra casa, à noite, sob a neve forte.

Sjöström antecipa a morte pela composição do ambiente, pela escuridão. Como no grande Aurora, de Murnau, as personagens projetam o mal em seus corpos, em suas ações, no desejo e, claro, na loucura. Algo inexplicável, e com o qual não podem lidar.

(Berg-Ejvind och hans hustru, Victor Sjöström, 1918)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O Fora-da-Lei e sua Mulher, um dos favoritos de Ingmar Bergman

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