Neruda, de Pablo Larraín

A fragmentação torna Neruda uma experiência incômoda. Mais que em outros filmes de Pablo Larraín – e, em certo sentido, um pouco como o recente Jackie –, aproxima-se demais das personagens sem que seja possível senti-las ou compreendê-las.

“Sentir”, no caso dos filmes passados do diretor, era possível: o sociopata de Tony Manero ou os padres pedófilos de O Clube eram reais, próximos, alguns próximos demais; “compreender”, por outro lado, talvez não seja algo a se exigir do cinema de Larraín, ligado a experiências sensoriais e outras vezes à imagem granulada e sem foco.

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Seu Neruda (Luis Gnecco) é vivo em discursos, um homem político que ambiciona, ao fim, tornar-se um grande líder popular em um cenário propício: um país cujo governo passa a perseguir comunistas. Talvez saiba da importância de seu martírio, de sua fuga, sem que se deixe agarrar: sabe que precisa terminar como herói dessa história.

Pois essa saga estranha, à beira do filme policial, necessita do algoz. Surge então a antítese, o homem medíocre feito às vezes de narrador, dono de ideias que deverão assustar as mentes liberais: o policial Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal).

Não chega a ser o vilão. É aqui o outro lado necessário para que a personagem histórica tenha peso: é, no fundo, o verdadeiro protagonista de um filme em que a aproximação de ambos só será possível quando um ou outro encontrar a morte, a essa altura sem trocar sequer um olhar ou uma palavra. Atraem-se e se repelem.

Peluchonneau é pequeno e desprezível. Não chega à alienação das personagens anteriores de Larraín porque tem consciência de sua própria dimensão trágica, de seu papel como coadjuvante necessário, do Judas que precisa existir para que se leve à frente o espetáculo de crucificação. E seu passado é conhecido: filho de uma prostituta e de um policial que o negou, mas do qual ele próprio retira inspiração.

Não se trata de uma cinebiografia convencional sobre o poeta – assim como Jackie não é um mergulho na vida da ex-primeira-dama americana, de seu nascimento aos acontecimentos históricos que tiraram a vida do marido, ou mesmo depois. São filmes que preferem o recorte, alguns instantes de intimidade e elipses constantes.

E pelas elipses se chega à já citada fragmentação, e ao seu excesso. Em Neruda, por exemplo, diálogos começam em um ambiente, seguem para outro e depois retornam ao primeiro. A elipse atinge o nível da ironia: seriam esses diálogos formas de um recorte e, portanto, diálogos que nunca existiram? Ou essas conversas ocorreram vezes repetidas, em diferentes locais, levadas à frente pelas mesmas pessoas?

É um filme que precisa se dividir entre o poeta e o policial para se ver fragmentado e tentar encaixar suas peças – entre situações que celebram a ousadia e a inteligência do primeiro contra a pequenez do segundo, um policial destinado ao fracasso. Tanto Neruda quando Peluchonneau podem ter criado o outro, caçador ou caçado.

Como em Jackie, há uma obsessão pelo mito como ser frágil, humano, não raro dono de atitudes impensáveis porque verdadeiras. Ao mesmo tempo, Larraín embala-os em bela forma sufocante, prende-os à expansão da grande-angular – enquanto o poeta tenciona chegar ao fim de sua fuga como líder popular e vitorioso, enquanto Jacqueline Kennedy lembra os dias de reinado em sua Camelot.

(Idem, Pablo Larraín, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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