Truman, de Cesc Gay

Desviar do drama é difícil, para não dizer impossível. Em sua abordagem sobre a morte, Truman ao menos deixa ver alguma graça e, sem apelar à pieguice com o público (tampouco, aqui, com o leitor), carrega momentos com certa lição de vida.

O protagonista é Tomás (Javier Cámara). O centro das atenções é seu amigo Julian (Ricardo Darín), que está morrendo de câncer. O filme aborda a dificuldade – ou não, no caso do segundo – de aceitar a morte. É difícil para os amigos, para os outros, para quem fica, para todos que, mais de uma vez, param para se lamentar a Julian. As expressões e palavras são sempre um pouco parecidas.

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Há outro problema no filme: o cão Truman. É grande, um pouco velho. Dificilmente se acostumará com facilidade a outro dono. Cães, sabem os donos, aprendem a viver com certas pessoas, custam a desaprender. No caso de Julian, será necessário encontrar um novo lar para Truman, então seu companheiro fiel.

Julian já aceitou a morte. Recusa-se a fazer quimioterapia. Segundo ele, é sofrer sem sentido, o fim é inevitável. Melhor viver menos e sofrer menos. Nem todos os amigos entendem, ainda que Tomás encontre nessa decisão – mesmo sem esboçar com clareza o que pensa – um gesto de coragem. A admiração é contida, vive nos olhos.

O drama é sincero, nunca apela à lágrima fácil. A certa altura, Julian chora pelo cão, não por si próprio. Ao que parece, já se convenceu da própria condição; mais aqui difícil é lidar com a opinião alheia, além de encontrar um destino para seu querido animal.

Tómas viaja do Canadá à Espanha para passar quatro dias com o amigo. Sabe da decisão do outro antes mesmo de chegar. Os dias seguintes resumem-se aos encontros com várias pessoas, incluindo uma viagem à Holanda para reencontrar o filho de Julian.

São diferentes em tudo: Tómas é contido, polido, ao que parece tem um casamento estável longe dali; Julian é solteiro, boêmio, e tem Truman como única companhia. Apesar de não ter grande peso dramático no filme, o destino do cão é o obstáculo encontrado pelo roteiro para guiar essa história e fornecer mais substância além da morte incontornável. E, a cada volta à tela, o animal parece dizer algo.

A partir de momentos que preferem reações sinceras ao exagero, o diretor Cesc Gay retira ótimo equilíbrio. Muito se deve, claro, à presença de atores extraordinários. Darin nunca é frágil em excesso, ao passo que Cámara luta o tempo todo para não deixar ver seu sofrimento – luta tão difícil contra a outra, contra a própria morte.

(Idem, Cesc Gay, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Clã, de Pablo Trapero

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