Ninguém Deseja a Noite, de Isabel Coixet

O espectador não chega a conhecer o explorador Robert Peary, de quem se fala com certa constância em Ninguém Deseja a Noite. A história em questão é a de sua mulher, Josephine (Juliette Binoche), e a de sua amante, Allaka (Rinko Kikuchi), ambas à sua espera em um ponto remoto do planeta, no Polo Norte.

A espera aos poucos deixa ver suas diferenças: Josephine comporta-se como uma mulher da alta sociedade no meio do gelo, com suas roupas extravagantes, sua felicidade estranha. Esse jeito de ser mais tarde perde espaço: à medida que tenta sobreviver ao inverno polar, durante semanas, ela logo abre mão de seus adereços.

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A outra, mais interessante, é nativa, uma esquimó com quem Robert teve um caso rápido. A história dela pertence à primeira: no momento em que vai embora, no encerramento, Josephine confessa ter guardado segredo sobre a terna Allaka.

O filme de Isabel Coixet é sobre duas mulheres diferentes que aos poucos se aproximam e a certa altura se parecem. É sobre sobrevivência, sobre repelir e se entregar, sobre movimentos aparentemente irracionais em nome do amor pelo mesmo homem. Ao espectador fica a impressão de um amor incompleto, de sentimentos distantes.

A noite, o gelo, as tempestades – tudo impede a sobrevivência. Nesse cenário difícil, as duas mulheres isoladas precisam sobreviver em um mundo no qual os homens ficam com os louros e os títulos. São eles, como Peary, que escrevem a História oficial, à contramão das mulheres resistentes, aqui em luta contra o inverno.

Coixet volta-se à história íntima, à simbiose quase obrigatória entre mulheres, entre corpos. A situação complica-se quando Allaka revela estar grávida. Sobreviver – menos por amor ao homem, mais por respeito à espécie e pela continuidade – torna-se necessário. A acrescentar, Josephine é uma mulher irritante.

Binoche e Kikuchi são opostas. A primeira tende à explosão, ao exagero, à forma como a mulher da cidade comporta-se no meio selvagem. Basta a cena inicial, quando mata um urso por puro prazer, para se perceber o esporte contido em suas investidas.

A outra é maior. É alegre, natural. Deixa claro à segunda, entre o clima frio, que terminarão próximas: como ela, Josephine terá de comer o alimento indigesto para sobreviver, terá de renunciar à vaidade e ser outra. Terá de aprender algo. Em vários dias sem sol, sob a escuridão e o vento forte, a regra é não se render.

(Nadie quiere la noche, Isabel Coixet, 2015)

Nota: ★★☆☆☆

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