O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii

Parte máquina, parte humana – com seu cérebro preso a um crânio de titânio, como diz o companheiro grandalhão e com olhos de metal – Major questiona-se sobre a origem – ou as origens – da alma. “E se um cérebro cibernético conseguisse gerar sua alma própria?”, pergunta ela, a certa altura de O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii.

Pouco a pouco o espectador percebe que Major é mais que um corpo escultural, que um olhar sem foco e sem mistério, uma mulher robô (ou parte) disposta a questionar a presença de vida nas máquinas. Retira algo de Blade Runner e muito empresta a Matrix.

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No alto de um prédio, no início, Major está plugada: o espectador descobre que ela pode estar ligada diretamente a um computador distante ou que é capaz de conversar com seus pares por impulsos mentais. Por sinal, a voz interna dá a ideia de ligação entre esses seres como algo não meramente tecnológico.

O que assusta em O Fantasma do Futuro é seu aspecto espiritual. Sua heroína permite que se veja, mesmo em casca tão dura, seu lado humano e profundo. “Sinto medo, ansiedade, solidão, escuridão. E às vezes até sinto esperança”, diz ela, após se banhar no oceano. “Quando flutuo de volta à superfície, me imagino como sendo outra pessoa.”

Ela é uma agente policial que investiga as ações de um poderoso hacker. O jogo de gato e rato logo é borrado: os vilões podem ser mais conscientes do que se imagina. E, nesse caso, o suposto vilão não é um homem ou uma mulher, nem uma máquina induzida apenas a tarefas. Não tem sexo, não tem forma, apenas assume vozes e corpos. Talvez seja um vírus que deseja crescer, multiplicar-se, ter vida própria.

Para descobrir tal ser indefinível, Major é levada a descobrir a si mesma – às vezes de forma acidental. Logo o corpo, a casca, deixa ver a alma. Mas não sem se transformar, ou se desfazer. Da pele que a recobre, durantes os créditos, passa à forma da bela mulher, não um mero manequim de curvas perfeitas.

Passa à forma feminina, mais tarde em pedaços quando resolve sair em busca de si mesma, quando seu corpo assume os músculos avantajados de um corpo masculino, no momento em que tenta penetrar outro casco e descobrir o corpo ocupado pelo hacker.

Nesse cenário caótico, político, de luzes neon em uma grande cidade suja, o corpo de Major é estranho: é como se precisasse se esconder entre o caos ou se fundir a ele (como ocorre na abertura, após saltar do prédio) ou se deixar levar às mutações necessárias – aos golpes, aos pedaços, depois à forma infantil – para se descobrir.

No fundo, O Fantasma do Futuro remete tanto ao físico – ou ao desespero para se escapar da casca bela e sem vida – quanto ao espiritual. Curioso notar que o vírus perseguido por Major não quer ser meramente um parasita. É o que ela descobre, ao fim, ao trocar de corpo com ele. A exemplo dos androides de Blade Runner, que podem até ser filosóficos, as máquinas aqui desejam descobrir o sentido da vida.

Viver mais ou viver o suficiente. Não necessariamente a eternidade. Morrer, sim, como confessa o vírus que troca de corpo com Major e faz nascer, no encerramento, outra pessoa (outra alma) no corpo de uma criança, mais evoluída, a enfrentar os grandes prédios e as luzes da cidade, espaço do qual não pode escapar.

(Kôkaku Kidôtai, Mamoru Oshii, 1995)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit

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