Body, de Malgorzata Szumowska

Os espíritos mandam recados aos humanos. Eles deixam janelas e torneiras abertas, apontando assim à libertação, ao alívio – ao mesmo tempo em que seres de carne e osso estão presos a um apartamento e aos seus próprios problemas.

Em Body vê-se um pai que pouco liga para a filha, que perdeu a mulher há poucos anos, que tenta ser indiferente aos detalhes de seu trabalho como investigador de polícia: às vezes se depara com cadáveres de suicidas, às vezes com crianças assassinadas.

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Sua filha não o suporta após perder a mãe. Não há comunicação entre eles, qualquer afeto. A certa altura, a menina revela sofrer de bulimia e é internada em uma clínica. Em um meio aparentemente físico, fantasmas não precisam dar as caras, ou passam quase despercebidos.

A diretora Malgorzata Szumowska utiliza os fantasmas como representação da necessidade de aproximação entre esses seres, a busca pelo afeto que desemboca na crença, o que os tornam mais unidos.

Ainda assim não se duvida dos fantasmas. Eles estão por ali. Eles mostram aos humanos que é necessário gritar, colocar para fora. Body está longe de um filme de terror, ou mesmo do drama sobre pessoas que não se tocam. É difícil de classificar.

A beleza da indefinição leva à alternância de situações, ao mesmo tempo com a sensibilidade da terapeuta espírita, com o riso do pai ou com os momentos em que a filha expressa, em terapia, sua dor contida. Mais uma vez, sobra o lado físico.

A terapeuta (Maja Ostaszewska) perdeu um filho bebê. A morte, ela diz, não tem explicação: segundo especialistas, muitas crianças são abatidas por morte subida. A falta de respostas leva a mulher a descobri-las. Torna-se médium.

Talvez mais valha viver com tal esperança, com o suposto contato espiritual, do que se render à pura materialidade. É o que parece dizer a cineasta, enquanto mostra o difícil trabalho do policial (Janusz Gajos) e a situação de sua filha (Justyna Suwala).

Em sessões de terapia com o uso do corpo, a médium pede que as meninas – todas magras, provavelmente vítimas de bulimia – gritem. A ideia é colocar a dor para fora. A certa altura, em sonho, o policial fará o mesmo, e depois acordará assustado.

O belo trabalho de Szumowska mostra a busca pelo afeto em uma Polônia fria, vítima da falta de comunicação, de ambientes fechados, sem cores, quase como prisões. É sobre a teia que une seres tão diferentes, sobre algum segredo – ou algum sinal – que pode estar contido no ranger das janelas, no vazamento da água.

(Cialo, Malgorzata Szumowska, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Agnus Dei, de Anne Fontaine

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