De Longe Te Observo, de Lorenzo Vigas

A maturidade de Armando (Alfredo Castro) faz com que seja sempre o mesmo: distante, observador, calculista. Não muda nunca, não dá acesso ao espectador. Do outro lado, a intensidade de Elder (Luis Silva) também não deixa ver tudo: é difícil imaginar que esse adolescente possa ser fisgado pelos supostos sentimentos do novo parceiro.

Elder passa de agressor à vítima das circunstâncias, em um universo urbano com pouco ou nenhum sentimento. O afeto – a ligação entre os homens solitários – será um passo em falso, uma traição, a revelar a fraqueza do menino, nunca o homem maduro.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Em De Longe Te Observo, a câmera de Lorenzo Vigas expõe frieza, a falsa aproximação. Nesse meio, é interessante separar as personagens, tentar compreendê-las segundo seus contextos – ou segundo o que se pode agarrar. Há pouco, é verdade. O filme é físico, opaco, urbano – e por isso mesmo difícil. Os sentimentos são difusos. Vigas retrata pessoas sob as regras e as forças do dinheiro e da indiferença.

Os homens em cena tiveram de aprender a viver sem seus pais. O mais velho talvez tenha sido abusado quando criança. Não se sabe. O mais jovem confessa seu problema com o pai: foi espancado e, caso tivesse um filho, diz, faria o mesmo.

A fúria é difícil de compreender e torna Elder alguém pequeno demais ao olhar experiente de Armando, cuja feição deixa ver o que pensa, talvez, em pequenos momentos, nunca o que planeja fazer com o outro.

Até os momentos derradeiros o espectador não sabe ao certo o que esperar. Mas resta a certeza de que este não é um filme de afetos, e que os sentimentos apenas conduzem o menino à perdição, o adulto à certeza de que esse universo injusto não oferece saídas.

Armando, ainda nos primeiros instantes, separa-se da multidão. À frente, põe-se ao foco. O resto perde-o. Aos poucos ele integra-se, caminha, busca rapazes pelas ruas de Caracas apenas para observar. É um voyeur. Dispensa o toque, o sexo.

Elder, o outro, é intenso: ao se descobrir, quer mais, quer o toque, a fissura, a marca de uma relação nada destinada à normalidade. Por sinal, a relação começa com total estranheza, depois com violência: o adolescente golpeia Armando e o furta.

O menino é um dos rapazes candidatos a michê. O que nega é o que não compreende: mais de uma vez, Elder ataca Armando, dizendo que este é uma “bicha velha”, ou algo do tipo. Não se conhece e terminará vítima de seu desentendimento: terminará ligado ao homem que antes agrediu, vivendo por algum tempo em seu apartamento.

O homem mais velho trabalha com próteses dentárias. Atividade que envolve precisão, detalhista, e que revela um pouco de sua forma meticulosa. Leva meninos para seu apartamento, aborda-os no ônibus. Um solitário que observa o pai a distância. Esse drama passado não será totalmente explicado. Armando quer vingança.

Em seus crimes, em sua vida na rua, Elder não perceberá que ele próprio é o produto. Sua intensidade não deixa ver que o amor – se é que existe – está distante dos espaços dessa Caracas desumana, habitada por homens reais e calculistas como Armando.

(Desde Allá, Lorenzo Vigas, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Passageira, de Salvador del Solar

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s