Passageiros, de Morten Tyldum

A certa altura a pergunta é inevitável: será que as pessoas realmente se comportam assim quando estão sozinhas, no meio do espaço, sem ninguém para observá-las? É o primeiro problema de Passageiros, também o problema central: suas personagens serão sempre artificiais, sempre presas a uma vitrine, como se fossem vistas por uma multidão quando, no meio do espaço, só olham para si mesmas.

O diretor Morten Tyldum dirige os atores com beleza e gestos inabaláveis. Não convencem nem quando a barba fica saliente (no caso dele) ou quando o ódio e a loucura ganham espaço (no caso dela). São formas esperadas, seres tão robóticos quanto o androide (Michael Sheen) que os atende no bar da grande nave.

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Essa beleza em excesso incomoda. É calculada em cada detalhe: nas luzes, no branco, nas formas metálicas, no olhar à imensidão. Alguém deverá argumentar que se trata de uma nave-hotel e, por isso, tudo o que envolve as personagens deve parecer belo.

Mas a beleza será colocada em xeque ao longo de Passageiros: essa mesma nave, espécie arca para muitas pessoas que viajam para outro planeta, para o início de uma nova colonização, passa a apresentar problemas após ser atingida por um meteoro.

O primeiro defeito revela-se no despertar do mecânico Jim Preston (Chris Pratt), 90 anos antes de chegar ao destino, ou seja, ao novo planeta. Esse defeito deixa-o sozinho por algum tempo, entre as grandes e claras paredes de metal, com todo o espaço à disposição: um belo quarto, quadra de basquete, cinema, piscina, bar e restaurante.

E, do lado de fora, a visão da escuridão, o nada, a ideia do tempo. Ele provavelmente morrerá antes de seus companheiros acordarem, e certamente não conseguirá chegar ao novo planeta. Entre os tripulantes, por acaso (ou não) ele terminou despertado para viver só. E a bela nave-hotel não será suficiente. Falta-lhe a mulher.

O ponto de partida – duas pessoas conscientes do isolamento e da solidão no meio de uma viagem sem fim e sem volta – é desperdiçado pelo artificialismo empregado por Tyldum, pela assepsia, pela ausência das sombras.

Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, a nave é propositalmente um espaço vazio, no qual as personagens são vigiadas por um robô e, nem por isso, levadas à interpretação evidente. O filme de Kubrick usa o isolamento como mal-estar, sem que suas personagens pareçam confiantes, amáveis e heroicas.

Para Tyldum, a partir do roteiro de Jon Spaihts, a luta pela sobrevivência não basta. É necessário injetar uma história de amor a rivalizar com a ação, sobretudo na parte final. A escolhida de Jim é a jornalista Aurora Lane (Jennifer Lawrence), que aprende a amá-lo, deixa-se conquistar e, ao descobrir que ele tramou seu despertar, evita-o.

Mais tarde, para dar explicações ao público sobre os problemas da nave-hotel, o roteiro saca uma nova personagem, o capitão interpretado por Laurence Fishburne. E o filme fica ainda pior. Não há mistério algum. Não é possível sentir medo ou desespero. Nesse meio tão limpo e branco, de seres tão bons, nem o medo ganha espaço.

(Passengers, Morten Tyldum, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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