Uma Mae West para King Kong

Em King Kong, de Peter Jackson, a ironia está nas ações do grande macaco, que faz de tudo para salvar e proteger a garota loura. Ela representa a modernidade, a atriz de cabelo curto, louro, uma das inúmeras candidatas a nova Mae West, durante a Depressão. Ele, a criatura, é o passado intocado, selvagem, livre e preso ao seu reino.

A garota termina a bordo de um navio com homens estranhos, no qual exploradores misturam-se a figuras do cinema, no qual um diretor faz tudo – contra todos – para chegar à Ilha da Caveira, cenário ideal para um filme jamais realizado.

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Mesmo com tanta ação, o melhor dessa versão de King Kong é a abertura, da imagem do primeiro macaco, no zoológico, à civilização que não deu certo, à velha imagem da modernidade mesclada à miséria: carros por todos os lados, gente pobre e com fome, grandes prédios que mais tarde servirão à escalada do macaco gigante.

Fala da evolução das espécies – ou, a depender do ponto de vista, da involução. Do macaco ao homem pelas ruas, do zoológico em que animais servem à distração do povo aos palcos do teatro e às telas do cinema. E se chega então à bela Ann Darrow.

Esse mundo de prédios tem mais movimento que a mata fechada e habitada por criaturas gigantes da Ilha da Caveira: Jackson sai-se melhor com o período em que os homens estabelecem-se como reis de um espaço quadrado, o mesmo em que Kong será perseguido por aviões e mais tarde abatido.

Entre os homens e Kong, na ilha misteriosa, impõe-se primeiro a barreira da névoa, sob o aspecto livremente falso dado ao filme pelo cineasta. Tenta, de todas as formas, recriar o clima do cinema clássico nesse cinema moderno cheio de barulho, com o peso em cada pequeno detalhe do som, ou mesmo em cada estrondo.

O diretor é melhor com criaturas digitais do que com humanos que tentam fingir emoção e entrosamento. O romance entre eles não funciona. O amor pelo macaco (ou do macaco) é mais interessante, mais real. A versão de Jackson, mesmo exuberante, termina como um rascunho falso de um filme divisor de águas feito nos anos 30.

Seu melhor está na frágil Ann (Naomi Watts), em seu olhar amedrontado à grande fachada – não tão grande, é certo, mas aqui ampliada e cheia de brilho – do teatro burlesco no qual mulheres carnudas entram pela porta da frente. É o momento em que a protagonista é vista pelo diretor de cinema através do reflexo da porta.

A moça servirá ao consumo dos seres que ocupam o alto da cadeia de poder, tanto na grande cidade quanto na selva: primeiro, à câmera do cineasta que deseja fazer o filme que ninguém fez; depois, ao grande macaco que domina a ilha fora do mapa.

Ao mesmo tempo verdadeira, simples, ao mesmo tempo exótica em seus gestos à câmera, no navio. A moça terá de interpretar para sobreviver: para entreter o público do cinema e do teatro, e para entreter o grande macaco que, em seu templo, observa-a.

Jackson utiliza um mar de recursos tecnológicos para reproduzir espaços que não se tocam, e entre os quais se impõe a muralha de madeira erguida pelos nativos da ilha, entre o total animal e a civilização. Esses mortos-vivos veem em Ann a parceira perfeita para Kong, a lourinha que é o próprio material cinematográfico.

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