Os Cowboys, de Thomas Bidegain

Entre o ambiente tipicamente americano e o território árabe, os homens de Os Cowboys talvez nunca ocupem totalmente o espaço francês. Usam chapéus, botas, escutam e dançam músicas tipicamente americanas, cercados por lagos e montanhas.

Na maior parte do filme, vagam por território árabe em busca de respostas: desejam saber o paradeiro da menina – filha e irmã – que desapareceu. O pai dela, Alain (François Damiens), torna-se obsessivo. Encontrá-la é sua missão. Tem a companhia do outro filho, Kid (Finnegan Oldfield), que mais tarde dá continuidade à empreitada.

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A garota desapareceu durante uma festa country, à luz do dia. O pai procura a polícia, qualquer pista possível. Conversa com amigos da moça, descobre que ela tem um namorado. O rapaz, de origem árabe, teria partido com a menina a algum lugar distante.

Alain desespera-se, não controla a própria fúria: mais de uma vez coloca seus planos a perder quando tenta resolver as coisas à base do grito e da violência. Em uma de suas viagens, a primeira, retorna para casa apenas com o lenço vermelho da garota.

A narrativa adotada pelo diretor Thomas Bidegain mescla longas passagens de tempo com pequenos momentos em que pai e filho deslocam-se por locais desconhecidos, frente a frente com árabes dispostos a trocarem informações por um pouco de dinheiro.

O sumiço da menina é apenas o início do drama familiar: logo o pai separa-se da mãe e vaga, solitário, talvez tentando entender o que teria levado a filha a escolher tal caminho. Ela foi embora por vontade própria. Como entender isso? Para Alain, deixar de procurá-la significa aceitar seu desejo: com outro nome, outra família e inserida em outra cultura – a árabe –, a menina não quer ser encontrada.

E ao passo que invadem ambientes até então desconhecidos, pai e filho estão, boa parte do tempo, sob outras regras. Os cowboys estão destinados a vagar pelo mundo, como os homens de Rastros de Ódio, clássico americano de 1956 que inspirou Bidegain.

No filme de John Ford, os pistoleiros cavalgam por anos para encontrar a menina branca convertida em índia depois de sequestrada. Os índios eram vistos como vilões, como intrusos em terra de brancos. E talvez a menina não pudesse ser reintegrada.

A diferença central em relação à obra de Bidegain está na ideia de ocupação, portanto uma visão moderna e realista: as personagens estão quase sempre em um ambiente que não lhes pertence, perdidas, vítimas da indiferença, da aparente distância.

Se Kid não pode encontrar a irmã, ao menos retorna para casa, à frente, na companhia de uma moça árabe que salvou da morte. Entre saltos no tempo, o rapaz amadurece. O filme é feito de seres brutos que não se entendem, quase sem espaço para mulheres. Causa estranheza quando essa moça árabe pede que o rapaz não vá embora, raro momento de afeto. A exemplo da irmã, ela terá de se adaptar a outro universo.

O diretor Bidegain consegue bons resultados em sua estreia na direção. Ele é roteirista de alguns filmes de Jacques Audiard, como o premiado Dheepan: O Refúgio, no qual a ocupação de um território também move o drama. Nesse caso, um estrangeiro encontra refúgio na França e tem de lidar com seus vizinhos, bandidos e traficantes.

Ao olhar do imigrante, são como os velhos índios de John Ford, ou como os árabes encarados por Alain e seu filho Kid: os diferentes que tanto assustam.

(Les cowboys, Thomas Bidegain, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

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