O Filho de Joseph, de Eugène Green

A relação das personagens com a religião é intermediada pela arte. A começar pelo menino, o protagonista, que mantém em seu quarto uma reprodução de O Sacrifício de Isaque, de Caravaggio, sobre a passagem bíblica na qual Abraão deverá sacrificar o filho em nome de sua fé.

O garoto sofre por não ter um pai – talvez por não ter alguém, em O Filho de Joseph, capaz de sacrificá-lo em nome de amor maior. Tem mãe, chamada Marie (Natacha Régnier), e depois encontrará Joseph (Fabrizio Rongione), levado à posição paterna.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O menino é um novo Cristo sem caminho, mais tarde destinado a encontrar, em suas andanças, o pai que o negou, o novo pai que lhe mostra o mundo a partir da arte e, a certa altura, terá sua caminhada com a mãe na “fuga pelo Egito”. São representações: a história bíblica – ou parte dela – é recontada por Eugène Green na atualidade.

Alguém, em uma festa para comemorar o lançamento de um livro, diz que toda arte é subversiva. O cineasta faz desse ensinamento uma regra: o filme, à sua maneira, subverte a história de Cristo sem ser ofensivo, sobre um menino que precisa encontrar o pai para testar o sacrifício de Abraão, para talvez esperar pelo anjo que o bloqueie.

Ou que lhe sussurre a “verdade” – seja lá o que isso quer dizer. Nesse meio, ele encontra possíveis saídas apenas na companhia de Joseph, seu novo pai, que lhe apresenta quadros e esculturas, toda a representação que a vida ao redor abarca e à qual, ao que parece, o garoto não tinha acesso. Green não leva à resposta fácil, ou a situações em que o espiritual suplanta o físico. Nem sempre a crença substitui o olhar.

Exemplo pode ser visto no momento em que o garoto, Vincent (Victor Ezenfis), diz que acreditava que um rio, em sua infância, não tinha fundo. Joseph, ao ouvir tal declaração, pergunta então se o menino viu o fundo do rio e, ao receber resposta negativa, afirma que é impossível dizer que o rio possui ou não um fundo.

Na verdade, jovens como Vincent, em uma sociedade material e científica, cresceram acreditando em verdades absolutas. Mas Green não apresenta certezas: o mundo ao redor pertence a cada um e a cada olhar, à interpretação que se faz das imagens.

O que torna a abertura intrigante, quando, logo após os créditos, o espectador depara-se com dois garotos, amigos de Vincent, torturando um rato preso à gaiola. A tortura é algo evidente, frio, banal em um filme que pede outro olhar, a paciência que o cinema recente não costuma conceder ao público. Vincent descobrirá esse olhar – e o público sua dor, sua necessidade – quando passa a ter a companhia de Joseph.

Há talvez uma crítica silenciosa à história oficial, tantas vezes contada, sobre Cristo: a do Pai misericordioso que entregou o filho à morte. Aqui, é o filho que se volta contra o pai, Cristo contra Deus, Isaque contra Abraão. Esse filho, mais tarde, fará o pai enfim perceber quem ele é, quando o Todo Poderoso envia seus homens para prendê-lo.

Ao encostar o punhal no pescoço de seu verdadeiro pai (Mathieu Amalric), após rendê-lo, Vincent espera algum sinal, algum anjo, e Green entrega a imagem da madeira branca, a da porta, como se dela emanasse algo, ou mesmo nada. O que está em jogo é o poder da imagem – e, sobretudo, o de encontrar nela algo além do óbvio.

Sem o anjo, o menino corre, foge do local. Longe do acaso, esbarra em Joseph. Sua vida muda, ainda que o pai verdadeiro, revelado alguém autoritário e adúltero enquanto o menino ouvia-o escondido, continue a assombrá-lo. Será sempre seu criador.

(Le fils de Joseph, Eugène Green, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
20 grandes filmes que abordam a religiosidade

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s