Lembranças de um Amor Eterno, de Giuseppe Tornatore

Qualquer sinal de reviravolta beira o alívio, ao público, ao longo da caminhada sentimental de Amy Ryan (Olga Kurylenko). Seu universo vira de cabeça para baixo quando o amante, um professor de astronomia, constrói para ela outra realidade.

Nesse trabalho de Giuseppe Tornatore, Lembranças de um Amor Eterno, o amante tenta seguir vivo, por certo tempo, após sua morte: é um drama sobre a impossibilidade de apenas se despedir, ou de apenas se fechar no próprio fim e aceitar o vazio.

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Pois as personagens, os amantes, preferem o discurso que remete às estrelas e seus mistérios, aos seres que nascem para o outro, à necessidade de os humanos criarem narrativas – e também charadas – para combater a constatação de que são pequenos pontos perdidos no meio do nada. É, sobretudo, sobre criar um significado.

Anunciar a morte é pouco. Despedir-se também. O amante é idealizado: busca outro caminho mesmo face à morte. E confunde a moça com seu “amor eterno”. Tornatore insiste tanto nos mesmos caminhos que sua obra não demora a enjoar. Por isso, qualquer sinal de mudança gera o citado alívio que não chega.

Ou mais: prefere andar em círculos, o que não deixa de produzir o mesmo resultado enfadonho. Para tentar se desviar do mesmo, insere questões que envolvem a família dos amantes. É a velha maneira de o falecido mostrar o caminho à amada, “torturada” a viver nesse mundo agora sem muito significado, e a buscar significados.

Ao mesmo tempo em que tenta decifrar os recados e obedecer às muitas mensagens (cada uma em seu tempo) do companheiro, a bela ao centro corre de um lado para outro, entre seus trabalhos, estudos, também aos pontos em que o amante vivia.

Longo caminho de Tornatore em busca da repetição, da melancolia da perda, do amor que sai atrás de um sentido quase à força: quando o mundo ao redor não tem qualquer sentido, essas pessoas são obrigadas a criar algo “maior”.

Seu cansativo trabalho é embalado por essa ideia: é moldado às mensagens adultas de superação, de luto, ao passo que também não dispensa os contornos extraordinários do homem especial (vivido por Jeremy Irons) que recusa a banalidade da morte.

Antes de morrer, ele criou um roteiro – com a participação dos amigos vivos – para que Amy continuasse a receber suas mensagens em vídeo e pelo celular. É como se continuasse em carne – ao mesmo tempo em que Tornatore faz o espectador crer na possibilidade desse homem reaparecer a qualquer momento.

Não aparecerá. O filme é dela, com seu luto e maneira cambaleante. Ao mesmo tempo em que tenta terminar seus estudos em astronomia, Amy trabalha como modelo e dublê em filmes. É o amante que explica sua condição: ela busca vestir outras máscaras, e não pode evitar que seu momento de dor seja ocultado.

Nua, a certa altura Amy serve de molde a uma obra de arte. Ao chorar e se movimentar, com o corpo preso à borracha, ela pode ter colocado todo o trabalho a perder. Mas ocorre o oposto: o artista vê nesse “defeito” algo verdadeiro e definitivo. As emoções são impressas, e não escapam à aparente matéria sem vida.

(La corrispondenza, Giuseppe Tornatore, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho

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