A Lei da Noite, de Ben Affleck

Ao mesmo tempo em que contribuiu tanto ao cinema americano, certa imagem da máfia tornou-o vítima de seus rascunhos. É o que alimenta o diretor Ben Affleck em nova investida no gênero policial: um rascunho com pouca vida em embalagem atraente.

Ainda assim, seu A Lei da Noite não merece desprezo: ajuda a lembrar, em vários momentos, o quanto essa imagem da máfia – ou do outro mundo americano entre guerras, de roupas elegantes e lourinhas ao estilo Jean Harlow – ainda gera atração.

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A maldade elegante entre chapéus e ternos brancos, carros quadrados de rodas finas, lenços à face para assaltos relâmpagos sob a constante falta de luz de túneis e bares. Um meio em que os homens, mesmo criminosos, ainda conservam a forma de heróis, e quase tudo se confunde: os bandidos lutaram na guerra e assim se formaram.

Essa história de retorno, de mudança, foi contata outras diversas vezes no cinema americano, o blábláblá de que o sistema cria seus assassinos, convertendo os bons em maus, como no clássico Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh, no qual Bogart termina na mesma vala que Cagney, na guerra, e ambos retornam como chefes do crime.

Mas o Affleck ator não tem um centímetro sequer da face criminosa de Bogart ou Cagney: o homem que viveu Bruce Wayne (e não serviu a ele assim tão mal) é agora visto como o criminoso que migra, e sem parar, por várias situações em um mesmo filme, da Boston em sombras à Tampa ensolarada e miscigenada.

O também diretor é Joe Coughlin, a quem ocorre quase tudo: após lutar na Primeira Guerra Mundial, torna-se ladrão de banco, envolve-se com a mulher de um mafioso (Sienna Miller), é preso pelo próprio pai (Brendan Gleeson) e, mais tarde, converte-se em líder da venda ilícita de bebida, em plena Lei Seca, em Tampa, na Flórida.

Terá de enfrentar a concorrência e a intolerância de homens da Ku Klux Klan, que não aceitam o fornecimento do destilado à comunidade latina. O que obriga o protagonista fazer suas costuras enquanto mantém rosto confortável, sempre sob as mesmas expressões (não muitas) do ator Ben Affleck. Suas limitações são conhecidas.

Não convence como o mafioso de jeito heroico, de atalhos para se regenerar típicos do cinema clássico – como simplesmente passar o bastão e deixar o mundo do crime de um dia para o outro após a chacina final. O filme serve-se mais do classicismo de Os Intocáveis que das sombras e sussurros – e da maldade – de O Poderoso Chefão.

Ou seja, ainda prefere o jogo de mocinhos e bandidos em um meio que, na prática, excluiu-o. A insistência de Affleck em fixar, de novo, certa imagem da máfia, de homens soturnos e em nada ambíguos, dá vida a um filme desagradável, no qual nem mesmo o movimento constante evita o fracasso da empreitada.

(Live by Night, Ben Affleck, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Argo, de Ben Affleck

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