Um Homem Chamado Ove, de Hannes Holm

A superfície de Um Homem Chamado Ove é conhecida: a história do velho ranzinza e solitário que pouco a pouco abre o coração e se transforma. É a personagem de papada avantajada, sempre séria, inclinada ao suicídio devido à solidão.

Logo o espectador descobre a tristeza de Ove, interpretado na velhice por Rolf Lassgård: ele perdeu a mulher, sua perfeita companheira. Nas memórias, a mulher que aparece é graciosa. Mas a memória, em um filme como tal, talvez nunca corresponda à realidade. Ao contrário, é a visão de Ove, apenas, o que se vê.

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Metódico, cheio de regras, o protagonista persegue todos os vizinhos e não quer ser perseguido. O diretor Hannes Holm explora essa difícil relação, e o que dela confere a mensagem dessa agradável comédia: é impossível viver de maneira isolada.

E apesar do título chamar para o homem, e este para seu drama anterior, é também um filme sobre o coletivo, sobre as pessoas que cercam Ove e que ocupam um dos planos finais, quando todos retornam para casa. Todos, a certa altura, ultrapassam o limite da porta, pela pequena rua em que carros não podem circular. Encontram Ove.

Mesmo no momento do suicídio ele será interrompido pelos outros – e mais de uma vez. E quando tenta se suicidar em público, atropelado por um trem, terá de agir para que outra pessoa não morra em igual circunstância. Nada aqui é acidental.

O pequeno conjunto de casas dá a ideia de um universo repetitivo. As rodas dos trens, no trabalho de Ove, é outro indicativo. Espaço que não cabe mais no mundo: um pequeno bairro ideal, uma sociedade ideal na qual o problema é o homem, com suas regras e formas de competição, em tentativa fracassada de se isolar dos outros.

Pois Ove, apesar do bom coração, deixa-se atingir pelo inexplicável: a morte da mulher retira-lhe qualquer possibilidade de compreender que há algo mais do lado de fora. Mesmo quando esse “algo mais” acena-lhe das janelas, de pequenos espaços, com comida e tentativas de aproximação. Isso será visto com a chegada de novos vizinhos.

Também com a gata que invade seu quintal. O protagonista termina vítima do individualismo contra o qual lutou: não será, nessa comédia, apenas um homem ranzinza e isolado, metódico até mesmo quando se trata de suicídio, gigante em sua fraqueza ao ser tomado de assalto pelos gestos das crianças que o cercam.

A comédia de Holm não demora a dar espaço a tons amargos. Os problemas de Ove são memórias que ganham espaço à força. Homem de coração grande – em dois sentidos –, ele será abatido em seu curso natural. Os vizinhos seguem em frente. As cores, os contornos e os detalhes não negam as intenções: é um filme sobre o coração.

(En man som heter Ove, Hannes Holm, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Apartamento, de Asghar Farhadi

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