Mulheres do Século 20, de Mike Mills

Três diferentes mulheres circundam um garoto. O menino tem de lidar com elas e nem sempre se sai bem. Com a mãe que lhe dá certa liberdade, mas que nem sempre entende seus momentos de ira; com a garota que ama, que invade seu quarto, mas que não quer fazer sexo com ele; e com a inquilina que pretende abrir sua mente.

A mãe (Annette Bening) é a primeira a ser apresentada em Mulheres do Século 20, dona de reações inesperadas, e que deixa claro se tratar de uma comédia. Dá muito ao filho e não sabe como controlá-lo quando o mesmo toma – e pede – mais independência.

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Nesse filme de cores fortes, de forma cômica para suavizar os problemas e de assunto, no fundo, tão sério, o clima de mudança passa pelas mulheres, a começar pela mãe – a certa altura em uma festa típica aos jovens da época, no fim dos anos 70, e ainda obrigada a ser, em outros momentos, a boa e velha mãe de séculos passados.

Por atravessar gerações, o diretor e roteirista Mike Mills elege-a o ponto central da história. Acerta em cheio. E Bening nunca deixa a desejar quando apresenta qualquer dúvida ou fragilidade, menos ainda quando precisa – mais de uma vez, ou várias – ser o ponto de união e de consciência, a convocar as outras mulheres a ajudá-la.

A segunda é a mais jovem (Elle Fanning), adolescente que nunca teve um orgasmo apesar de já ter experimentado sexo com alguns rapazes – poucos ou não. Simboliza a ponta oposta à mulher formada, a mãe: é a menina que, como o jovem adolescente, não sabe aonde correr, não sabe amar, vítima da frieza e das emoções da pele.

Escala os andaimes da casa do menino, em reforma, para chegar ao seu quarto. Entra pela janela para dormir com ele. Apenas dormir. Jamie (Lucas Jade Zumann), como outros de sua idade agiriam, enfurece-se por não tê-la por completo em seus braços.

Pois o filme de Mills fala de amores deslocados, incompletos, de situações que não preenchem os sentimentos de todos, de pessoas que não se compreendem. Alguns estão dispostos a ter muito, outras tentam escapar, fugir, como a menina que passa pela janela.

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A terceira, a inquilina (Greta Gerwig), viveu o suficiente para se deparar com alguns tropeços. Teve câncer, venceu a doença, mas por causa dela descobriu que não podia ter filhos. E descobriu, de quebra, que o câncer teria sido causado por um remédio tomado pela sua mãe, antes, justamente para engravidar.

A maternidade percorre o filme todo. A primeira mulher, a mãe, pede que as outras a ajudem na formação do filho. Talvez não cheguem a ser novas e outras mães. Ela tem consciência de que nesse meio complexo apenas uma mulher não dará conta dos questionamentos de alguém que cresceu nos anos 70, sob os efeitos sociais de uma guerra, frente à libertação feminina, à introdução de tantas novidades da ciência.

O menino vive também a era pré-Aids, e pouco antes de Ronald Reagan chegar ao poder. Mesmo com narrações que antecipam o futuro, o filme prefere o passado, retrato estampado por essas mulheres do século 20: a representação de uma sociedade ainda feita de excessos e felicidade, de liberdade e pluralismo.

Mills não apela à nostalgia boba. Suas imagens do passado – as reais, em fotografias, ou mesmo as da ficção – dão a ideia de quanto se perdeu, e o que se perdeu, dos dias em que meninos e meninas ainda fugiam com o aval dos pais, ou com eles ao lado.

(20th Century Women, Mike Mills, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn

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