Lion: Uma Jornada para Casa, de Garth Davis

Os rostos tristes das crianças, pregados na janela do trem, logo fazem lembrar Quem quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, que estabeleceu uma imagem da Índia no Ocidente. Estão ali, nas mesmas crianças, um pouco de miséria e esperança.

De Garth Davis, Lion: Uma Jornada Para Casa arrisca invadir novamente esse espaço, porém sem as mesmas músicas agitadas e a fábula moderna de Boyle, na qual nada é por acaso. Davis procura miséria maior: seu menino parece sofrer mais, no campo em que transita rumo à realidade – mesmo com as fugas conhecidas do texto.

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O pequeno Saroo (Sunny Pawar) vive com o irmão mais velho, Guddu (Abhishek Bharate), em pequenos trabalhos e furtos: sobrevivem como roedores, das sobras, para delas levar alguma coisa para a mãe, no fim do dia. E quando aparecem em casa com leite, a mulher logo desconfia que o alimento é produto de algum crime.

Outra coincidência – ou não – relacionada ao famoso filme de Boyle: essa aventura permeada por crimes e, no fundo, pela sobrevivência diária é encarada em tom cômico: a visão dos meninos que resistem aos problemas enquanto brincam e enxergam a beleza da natureza, das rochas às belas borboletas amarelas que os cercam.

A visão de Davis é, até a metade da obra, a da criança, inclinada a encontrar o sonho, o que de bom ainda resta em meio a inúmeros problemas. A história de Saroo, ao contrário do que título brasileiro parece apontar, ocupa mais tempo com as situações que o levam a se perder, menos com reencontrar a casa, em sua fase adulta.

Na infância, na primeira parte, o filme é superior, e gera interesse. A criança não precisa de uma “interpretação” para se impor: é, em sua própria simplicidade, o que há de mais interessante, o que pode ser apenas a aproximação da caracterização desejada.

Ou seja, com as crianças, ou com os não atores, é possível flagrar algo real que o filme, em sua insistência na busca por belas imagens da Índia pobre, não consegue. Essa jornada sobre se perder é o que o há de melhor. A criança, ao dormir em um trem e ser levada a quilômetros de distância de sua casa, vê-se sozinha entre a multidão.

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O mundo é maior do que parece: ela sobe em um pilar da estação de trem, distante da antiga cidade, e observa o mar de pessoas. Grita, em vão, pelo irmão e pela mãe. Mais tarde, o rapaz Saroo (Dev Patel) observa imagens de sua antiga terra, do alto, pelo computador: o ponto de vista em que o mundo é menor do que parece.

A alteração do olhar representa as diferenças entre a criança e o homem: a maneira de ver o mundo. E, ainda depois, a diferença entre acreditar que é possível encontrar o caminho de casa com facilidade (a criança) e a dificuldade de recordar os detalhes da antiga vila de chão de terra, local que, descobre Saroo, não mudaria tanto assim.

Lion sofre do mesmo problema que Pequeno Segredo: carrega a obra de belas imagens e não sabe o que fazer com elas. Ou espera que sobrevivam sozinhas. Não demora a recorrer aos reencontros entre mãe e filho, ou entre irmãos, para injetar drama. Perde então a naturalidade da criança, o que há de melhor em um filme medíocre.

(Lion, Garth Davis, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

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