Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington

No fundo de casa, construindo sua cerca, Troy Maxson não percebe que o mundo mudou. Pode olhar por outro ângulo e ainda assim é provável que fracasse: de sua agradável varanda ou da traseira do caminhão de lixo sobre a qual trabalha.

Fica até certa dúvida sobre essa dificuldade de ver, relacionada a Troy, em Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington (também o protagonista). E isso dá a ideia do terreno em questão, sob o olhar e as intenções de uma personagem problemática, quase sempre a guiar o espectador.

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O público não terá apenas ele. Mas é com Troy que se avança: a cada erro ou fala alta, a cada gesto de ignorância que desestabiliza, vem – contra ele – a figura da esposa, a grande mãe interpretada com garra por Viola Davis. Segunda ela, o mundo mudou; segundo ele, os negros continuam a não ter espaço na sociedade dos brancos.

Ao fim, difícil não reparar em duas fotos na casa de Troy, ao lado da porta que dá para os fundos, com dois homens famosos e assassinados: Martin Luther King Jr. e John F. Kennedy, suposta conjugação para um mundo possível entre brancos e negros.

A família, com ou sem Troy, busca essa esperança. Talvez seja o pai problemático e rançoso que evite ver tamanha esperança: no fundo, ele crê em uma vida estacionada, na prisão que se materializa, que se metaforiza, na forma das cercas que impõe aos limites do quintal, no mesmo fundo que serve para suas entradas, no mesmo atalho às ruas.

Pois é no fundo, no canto esquecido da casa (ou nem tanto), que se travam os grandes dramas – e o local em que a família enfim se vê unida (mas não totalmente) para assistir ao espetáculo da luz, sinal de alguém que, enfim, encontrou sua entrada no paraíso. E é pelo improvável que o sinal será dado: o irmão de Troy com problemas mentais, Gabriel (Mykelti Williamson), que força a trombeta em direção ao céu.

O mundo realmente mudou? Troy, de entregador de lixo, torna-se motorista. Ganha e perde. Ao fim, ele confessa que dirigir pode parecer mais nobre ao homem negro ao qual antes apenas o lixo era legado, mas em contrapartida não fala mais com ninguém durante as viagens de trabalho. O que ajuda em seu comum amargor.

O protagonista – que, apesar de exagerado, nunca se perde em caricatura graças ao talento de Washington – recusa-se a enxergar as mudanças. Não aceita que o filho mais novo seja jogador de futebol. Ele próprio tentou ser um jogador de beisebol e fracassou. Sua versão é sempre a mesma: aos negros restam poucos espaços nas partidas.

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A mulher argumenta que as coisas mudaram. O filho também. Para confrontar o pai, cita diversos jogadores negros de sucesso. E sequer importa o esporte. O clima de rivalidade, de ódio, é expresso aos cantos, na relação entre negros. É interessante notar como surge pouco a pouco, nas armadilhas que as personagens criam para si mesmas.

Mesmo confinado a pequenos espaços, às vezes se abrindo às ruas ou à porta dos fundos do trabalho de Troy, Um Limite Entre Nós é dinâmico em sua construção visual. O excesso de diálogos não leva à aparência teatral. Em cena, pessoas simples tropeçam no drama que vive por ali, à espreita, antes em silêncio.

As cercas no fundo da casa servirão de impedimento ao mal que ronda os espaços externos, ou para aprisionar aqueles que vivem ou viveram naquele local. Caso do filho que se torna militar, levado a descobrir que nunca poderá se ver livre da sombra do pai repleto de defeitos com quem travou brigas no fundo da casa.

Há ainda a questão religiosa. Troy desafia a morte enquanto Gabriel, com sua trombeta gasta, diz lutar para expulsar os cães do inferno. A religião será um sustento, a possibilidade de encontrar o paraíso para além daquelas cercas, ou daquele céu.

(Fences, Denzel Washington, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Ser negro (em quatro dramas que concorrem ao Oscar 2017)

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