O.J.: Made in America, de Ezra Edelman

Vale, por algum tempo, esquecer o protagonista, o “herói americano”, o “negro que deu certo”, e se fixar no espetáculo criado ao seu redor: poucas vezes a mídia e o público, do lado de fora do tribunal, mostraram tamanha sintonia. Para a turba, oferecia-se o que havia de mais apelativo, o que poderia mudar o jogo: o conflito racial.

O homem moldado à parte de sua raça, que nas entrelinhas se negava – estando, acreditava, acima dessas classificações, sendo apenas O. J. –, passava a depender então da comunidade negra, da opinião que ecoava pelas ruas, em cartazes e gritos que pediam sua libertação. O. J. deixava de ser o astro, o homem que deu certo e que então se via encurralado: transformava-se em símbolo de esperança.

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E a partir desse símbolo, e da eleição do conflito ao centro, desenha-se um caso absurdo em que o culpado passa a inocente aos olhos de todos, sob a lente da câmera instalada no interior do tribunal. O.J.: Made in America oferece essa mescla curiosa: a forma como o momento, o homem e a opinião pública possibilitaram tal injustiça.

A começar pelo cenário, o tribunal. A começar pela câmera, a possibilitar a interpretação. Afinal, não se interpretava – e se evocava a raça, sempre à baila – apenas aos jurados (compostos em grande parte por negros), mas também ao telespectador.

Era importante que tudo ficasse claro, que tudo fosse visto: as pessoas, brancas ou negras, deveriam ter acesso ao chamado “julgamento do século”: uma celebridade negra no banco dos réus, apontada como assassina de sua ex-mulher, bela e loura, e de um homem branco. O réu serve-se bem: sabe interpretar como poucos.

A turba, em sua parte negra, compra o espetáculo. Toma as dores. Como poderiam condenar, de novo, um homem negro aos olhos da nação e do mundo, em uma cidade com um histórico racista como Los Angeles? O passado de conflitos – do qual Orenthal James Simpson escapa, como homem rico e famoso – é a carta na manga da defesa.

Isso explica a habilidade, o cuidado, do documentarista Ezra Edelman: é necessário mostrar antes – e entre a trajetória de O. J. – como se produziu o contexto do “julgamento do século”, como o os negros foram, mais de uma vez, vítimas de um sistema policial branco que espancava jovens e destruía a vida de pessoas inocentes.

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A vitória de O. J. no tribunal é a resposta a esse ressentimento ligado à cor da pele: a comunidade negra tinha então motivos para se aliviar, ainda que o inocentado retorne ao seu bairro rico, feito em sua maior parte por brancos que acreditavam em sua culpa.

O título do documentário vai além da personagem central: não apenas O. J. foi moldado pela América. Todo o espetáculo em torno dele – a ascensão, Hollywood, a aceitação entre os brancos, a absolvição, depois outra prisão – recebe as pinceladas de advogados (atores) experientes, homens que o dinheiro do protagonista podia comprar.

O trabalho de Edelman é feito a partir de relatos de (quase) todos que protagonizaram esse misto de farsa e redenção, momento em que os conflitos raciais perdem a estética do antigo documentário em preto e branco com discursos políticos inflamados, de líderes mortos, para dar vez à imagem televisiva, na qual parece ser possível ver tudo.

A certeza sobre O. J. é a de um ator nato, da mistura entre esporte, cinema e televisão: o homem que não queria ser lembrado pela cor da pele, mas que termina absolvido justamente por ela. Reflexo perfeito de um meio cínico, não raro indecente.

(Idem, Ezra Edelman, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Ser negro (em quatro dramas que concorrem ao Oscar 2017)

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