O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

Os humanos de O Lagosta não conseguem se adaptar aos seus grupos: de um lado, são obrigados a conseguir companheiros; de outro, a viver sozinhos, na floresta, como rebeldes que resistem às amarras do sistema. Em que época é ambientada a história? Não se sabe. Há indícios de que esteja próxima do presente.

O fracasso na busca de sociedades alternativas move a comédia absurda de Yorgos Lanthimos, escrita em parceria com Efthymis Filippou. Ou a tentativa da ordem em domar animais que os humanos ora ou outra se revelam. Questão de tempo.

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Nesse estranho presente, ou anúncio de um futuro distópico, as pessoas estão proibidas de viver sozinhas. Quem não tem ninguém é levado primeiro a um hotel afastado, submetido a conhecer alguém, talvez, a sair dali com um companheiro. Caso contrário, o solitário é transformado em um animal de sua escolha, em um quarto secreto.

O absurdo é a saída para Lanthimos espreitar a normalidade dos estranhos: esses seres só conseguem se sair bem em seus meios quando fingem, quando se “adaptam” às regras, e precisam escapar mais de uma vez para se descobrirem cegos ao fim.

Nem o sistema e nem os rebeldes servem ao homem ao centro, a personagem de Colin Farrell. Com óculos, bigode e barriga saliente, o ator molda-se perfeitamente ao desajustado, ao solitário que apenas encontrará seu caminho quando se coloca à contramão das regras: finge ser o homem certo à mulher errada, finge não ter sentimentos ou ser digno de um relacionamento quando encontra a certa.

Em todos os casos, os grupos que o atacam dizem o mesmo: esse homem reprimido não pode assumir seus instintos e viver com seu lado animal (ou natural). Mas os mesmos grupos não se dão conta da suposta selvageria à qual apelam para manter a ordem: eles próprios, agentes do sistema ou rebeldes, tornam-se animais descontrolados.

Eis a ironia de O Lagosta: a ditadura impõe-se dos dois lados. E a comédia darwinista de Lanthimos abusa da máxima “a liberdade acima de qualquer coisa”. Terminar cego, no caso do protagonista e de sua companheira (Rachel Weisz), é outro ponto real, representativo: a liberdade total é uma cegueira, algo inatingível.

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O gesto de amor, deslocado, aqui funciona: não pode se reproduzir no meio em que todos fingem (aos agentes do sistema) e se reproduz com facilidade no qual todos estão proibidos de mostrar sentimentos. O protagonista apaixona-se pela mulher que finge ser sua companheira quando ambos cumprem missões na cidade. Em qualquer um dos lados, no hotel ou na floresta, o homem será obrigado a viver outra vida.

As estranhezas dão vez pouco a pouco ao natural, ou seria o oposto? O estranho está em todos, fechado, como se viu no filme anterior de Lanthimos, Alpes, no qual um grupo de pessoas assume a vida de quem já morreu. A certa altura, um deles só conseguirá viver se continuar a interpretar, sendo sempre o outro, escravo de sua máscara.

O diretor grego não é acostumado à normalidade. Suas personagens são sempre automáticas, como se estivessem congeladas, ou como se vivessem uma nova descoberta a cada instante. Nem mesmo a floresta que as cerca, na segunda parte de O Lagosta, consegue conferir a esses seres certa naturalidade.

Para o realizador, o que parece natural é sempre fingimento. Os autênticos buscam a liberdade para ser o que quiserem. Em alguns casos podem terminar mortos, ou cegos, ou ainda sob a mira de uma arma, caçados por alguém que antes se dizia um amigo.

(The Lobster, Yorgos Lanthimos, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Alpes, de Yorgos Lanthimos

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