Ser negro (em quatro dramas que concorrem ao Oscar 2017)

Após uma edição em que a ausência de atores negros gerou protestos contra as escolhas do Oscar, 2017 traz diversos concorrentes negros entre seus indicados. Para além do prêmio, chama a atenção como esses filmes abordam a posição do negro na sociedade americana, entre questões passadas e históricas e outras atuais.

Um drama comum percorre esses longas, mesmo quando não há brancos malvados a investir contra as personagens centrais: o sentimento de exclusão. Cada um dos filmes, com suas características próprias, fala do ódio direto ou indireto gerado pela diferença.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

um-limite-entre-nos

O ator e diretor Denzel Washington está à frente de Um Limite Entre Nós. É um dos atores mais famosos do mundo, “modelo do homem negro”, servindo à imperfeição de sua personagem, homem de meia-idade que transforma a vida de sua família com regras e o ódio que adotou em anos de vida, na convivência com os brancos.

Segundo ele, ao filho e à mulher fiel, os negros nunca terão as mesmas oportunidades que os brancos: um jogador de beisebol negro, por melhor que seja, nunca terá o lugar reservado ao atleta branco e medíocre. É o que deseja passar ao filho mais novo, que sonha em ser jogador de futebol americano – contra as intenções do pai.

O filme todo é ambientando em um círculo de pessoas negras, em difícil convivência, nas intempéries que levam a embates, sempre sob o ranço que esvaia da personagem de Washington, que agride o filho, trai a mulher, mas nunca chega ao vilão esperado. Seu filme não comete os erros de Estrelas Além do Tempo.

E, de novo ao contrário do filme de Theodore Melfi, suas figuras não estão escondidas. Estiveram sempre ali, com seus problemas comuns, no mesmo bairro comum, com os encontros no fundo da casa, no qual o mesmo pai ergue cercas para se proteger do mundo externo – ou talvez para impedir a passagem para o lado de fora.

Em Estrelas Além do Tempo, três mulheres negras que trabalham na Nasa lutam por mais espaço. Cada uma em uma área, com dificuldades em uma época em que brancos e negros não frequentavam o mesmo banheiro e não usavam a mesma cafeteira.

Esse conflito dá-se em paralelo a outro: a corrida espacial, também nos anos 60, quando todos olhavam ao céu – ou à televisão – em busca da imagem do astronauta, ou de sua estufa. O filme diz que a corrida espacial poderia, à época, unir negros e brancos, com suas personagens de contornos rasos e idealizadas.

moonlight1

A subida do foguete, pela televisão, não empolga as personagens de Loving, outro drama ambientado nos anos 60. Em cena, um casal inter-racial é preso em uma época em que um relacionamento do tipo era crime. Dá para entender o desdém em relação à corrida espacial: os problemas sociais eram maiores. Olhavam ao lado, não ao céu.

Pois olhar para o lado é reconhecer o problema em seu próprio gueto, o que, em alguns desses filmes, leva ao sentimento de exclusão. Moonlight: Sob a Luz do Luar trata desse sentimento e, como Um Limite Entre Nós, seu conflito trava-se no espaço ocupado apenas por negros. São bairros de classe média baixa, com o foco em um garoto, da pré-adolescência à vida adulta. E ultrapassa o drama do racismo.

Moonlight é o melhor desses dramas de Oscar justamente por escapar do estereótipo, pela naturalidade. O sentimento do jovem negro é exposto na busca de identidade, pela maneira triste como encontra espaço para ser quem verdadeiramente é apenas pelo que os outros parecem não aceitar: a homossexualidade.

O filme de Barry Jenkins em algum momento toca o de Jeff Nichols, autor de Loving. São obras sobre pessoas que não pedem por complacência ou gritam pela urgência de seus problemas, e o prazer em vê-las está ligado menos à empatia que produzem, mais à situação que vivem, dramática o suficiente para questionar o espectador.

Observação: dos filmes citados, Loving é o único que não concorre ao Oscar de melhor filme; está indicado à categoria de atriz, para Ruth Negga.

Foto 1: Um Limite Entre Nós
Foto 2: Moonlight: Sob a Luz do Luar

Veja também:
Loving, de Jeff Nichols
Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi
Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s