A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien

Um jornalista relata, na ocasião do lançamento de A Assassina no Festival de Cannes, que as cenas de luta de Hou Hsiao-Hsien geraram risadas entre o público, pois estariam calcadas em “edição amadora”, que procurava se passar por “estilo”.

A edição, em qualquer filme, pode mais ocultar que seu oposto. Nos trabalhos anteriores de Hsiao-Hsien, o espaço sempre foi o do plano-sequência. E assim continua nesse filme de artes marciais, no qual as cenas de ação são praticamente secundárias.

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Talvez o problema seja mesmo essa aparente confusão de formas, em um filme de definição difícil: não chega nem a ser um verdadeiro exemplar dos longas de artes marciais chineses, nem um típico trabalho do diretor de obras como Adeus ao Sul.

Tampouco deixa de ser um espetáculo. Tem mistério, diálogos que dizem muito ou nada, a ponto de causar alguma confusão. O espectador é lançado a uma teia que mescla situações amorosas – entre a assassina do título e seu primo, o líder que ela deverá matar – e conflitos políticos entre uma província e seu Estado.

A protagonista (interpretada pela bela Qi Shu) é treinada para matar. Sua superiora, uma monja, designa missões à moça. Na abertura, pede que ela mate um homem a cavalo. A discípula corre e corta o pescoço do alvo. Em outra missão, a moça declina: ao se aproximar da vítima, vê uma criança no local e desiste do crime.

As cenas de ação são estranhas, a aceleração rompe um cinema marcado pela calma. Por outro lado, tais sequências agitadas oferecem algo diferente das coreografias dos populares filmes de artes marciais, conhecidos como wuxia.

A luta é parte do cotidiano da heroína, moça de rosto fechado que se recusa a falar com oponentes e vítimas. Hsiao-Hsien volta-se à linguagem do corpo – ou da câmera – em um filme em que se fala muito, mas no qual o diálogo perde espaço. O movimento panorâmico ora ou outra faz pensar no extraordinário Flores de Xangai, feito em planos longos, com poucos cortes, nos ambientes fechados dos bordéis.

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Ao fim de A Assassina, há uma sequência na qual a névoa lentamente invade a paisagem. A protagonista conversa com a mestra, confessa que não conseguiu cumprir, de novo, sua missão. O que deveria ser um diálogo-chave dá vez à exposição do clima, da transformação: é o movimento da natureza, o branco sobre o verde.

Por sinal, começa em preto e branco. As cores surgem quando a heroína retorna para casa, e quando precisa matar – ou não – seu alvo. O espectador descobre que ela havia sido prometida ao primo e que depois o acordo foi quebrado: ele teve de se casar com outra mulher, e a moça, distante, com seus “estudos”, torna-se uma assassina.

Em alguns momentos, a câmera é posicionada atrás de cortinas. Difícil chegar à ação, em um misto de impedimento e acesso à intimidade do líder pelo qual a assassina é apaixonada. Por ali, ela passa por trás das mesmas cortinas, ao mesmo tempo parte e excluída desse universo fechado, um espírito que vaga.

A experiência é inegavelmente bela, longe do vazio ao qual apontam alguns críticos e jornalistas. Mesmo no campo dos filmes de artes marciais, o cinema de Hsiao-Hsien continua grandioso, feito de calma, de momentos irretocáveis.

(Cìkè Niè Yinniáng, Hou Hsiao-Hsien, 2015)

Nota: ★★★★☆

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