A Floresta para Árvores, de Maren Ade

A infantil Melanie Pröschle pode gerar incômodo e pena ao mesmo tempo. Não é pouco, e são poucas as personagens que conseguem tanto. A Floresta para Árvores – estranho desde o título – é mais simples do que parece. Não fosse a personagem.

O filme é dela. A diretora Maren Ade volta o olhar ao jeito recluso da moça, à sua dificuldade em pertencer, em fazer amigos. A sociedade fecha-se para ela. E o título voltar a martelar: a floresta é algo mais difícil de cultivar do que uma árvore.

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O que leva a pensar também no apartamento de Melanie, interpretada pela ótima Eva Löbau. Espaço de criança, de paredes coloridas, de muitas plantas. Ainda no início, a moça levará plantas aos vizinhos, como forma de aproximação, para fazer amizade.

Suas tentativas são frustradas: os outros não estão interessados em Melanie, ainda que ela, em momentos, sequer faça esforço para tanto. A Floresta para Árvores não é um filme de gênero, mas bastaria pouco, tratando-se da personagem, para que ao menos estivesse perto de tantas outras garotas que, em várias comédias americanas, sofreram para ser parte de um grupo, por uma amizade ou um amor.

A moça tem sua própria forma de lidar (ou não) com o que a rodeia. Na escola, a comunicação é possível com as crianças menores, não com os adolescentes. A protagonista não consegue colocar ordem na classe, é motivo de risada entre os alunos. Seu grito não sai nunca e pode voltar de outras formas, como nas investidas de Melanie à vizinha, de quem tenta se aproximar, ou do professor e amigo de trabalho.

Ele é o único em cena a se aproximar dela. Mas a moça não o deseja. Quer gritar contra tudo o que ele talvez represente: seu reflexo, a imagem de alguém tão preso e complicado quanto ela, alguém que parece simplesmente não ser natural, que não consegue se relacionar com os outros sem deixar de lado a etiqueta do “esquisito”.

O filme de Maren Ade é sobre fazer parte, ou tentar. Sobre gritos em silêncio dessa menina, ou criança, que expõe quase tudo em sua cruzada para ser alguém “normal” – ainda que isso pareça estranho, para não dizer impossível. O que diferencia Melanie talvez seja apenas sua falta de naturalidade, seu impenetrável mundo à parte.

A composição leva a pensar em um filme do movimento Dogma, com liberdade e improviso, e a imagem como forma de exercício de interpretação. É um trabalho de ator, com a câmera em momentos a persegui-lo, a flagrá-lo em situações que podem parecer estranhas ao primeiro olhar. Pessoas como a protagonista estão fadadas a sofrer, ou a voltar ao banco de trás, ao lugar das crianças.

(Der Wald vor lauter Bäumen, Maren Ade, 2003)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
13 Minutos, de Oliver Hirschbiegel

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