Cão Danado, de Akira Kurosawa

Ao policial, perder a arma equivale a perder a própria honra. Como um samurai, ele sente-se humilhado. Perde o chão e, sujo, vaga pela cidade em busca de pistas sobre seu instrumento de trabalho: é tragado aos pontos tomados pela escória.

Enfim, é fundido ao ambiente, ao clima de perdição no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, talhado em seres paralisados, com corpos cobertos pelo suor. Todos esperam pela chuva, pela água, contra o calor – enquanto o policial só quer recuperar a arma.

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Com Cão Danado, o diretor Akira Kurosawa ainda não havia chegado à excelência vista logo depois, em obras-primas como Rashomon e Os Sete Samurais. Sua história apenas parece pequena. Sua personagem é um policial novato, bonito, de terno branco e chapéu: é quase sempre um cavalheiro em meio a tanta gente estranha, pessoas entre velhos e novos costumes. Ele oferece traços ocidentais.

E o próprio diretor seria acusado de se ocidentalizar, ainda mais quando seus filmes de samurai, mais tarde, ganharam versões em faroeste, em outros pontos do mundo. Seu herói, Murakami (Toshirô Mifune), tem algo americano. O ambiente faz pensar em filmes noir. As incertezas que vive, a indiferença dos outros – tudo leva à urbanização, aos seres desconfiados, pobres, inconscientes. O filme é também neorrealista.

Pelas ruas, a montagem rápida mostra o que parece ser mais de um homem. Murakami desloca-se com velocidade: persegue a mulher que teria roubado sua arma no ônibus – uma batedora de carteiras – e depois percebe que ela é apenas a ponta da trama.

A cada descoberta, novos fatos, outras figuras e incertezas: o erro do protagonista, como se vê, leva-o à sua própria descoberta, ao Japão real que brota depois da guerra, na infiltração das perdições, na passagem da imagem do velho – vista nos figurinos femininos tradicionais – à aparência ocidental – no show de cabaré.

Feito para trabalhar pela ordem, o homem só encontra desordem – e quase não resiste a ela. É o drama maior de Cão Danado. Nessa fusão, torna-se cão: pobre, maltrapilho, guiado pela incerteza, ou apenas pelo instinto. Mais tarde, alguns filmes policiais restaurariam essa aparência bárbara, a do instinto, em homens que preferem a ação ao pensamento – como se veria no incrível Operação França, para ficar em um exemplo.

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Expostos à tela, os olhos de Murakami são como os de um cão, ou como os do cão da abertura. Sente algo? Está apreensivo? Tem medo? São muitos os rostos – a invocação da incerteza – que se pode ver naquele cão dos créditos, perdido, sem dono.

E esse cão – sem sua arma, humilhado e, por isso mesmo, sem identidade – terá de encontrar seu guia. Mais tarde, o jovem herói descobre o mestre, o também policial Sato (Takashi Shimura), cuja preocupação é relacionada à arma do outro.

O problema é que ela – alugada pela bandidagem em troca de alimento – caiu nas mãos do homem errado, sumido até o desfecho. Depois de tantas voltas, Murakami é obrigado – de novo, como um animal – a se guiar pelo instinto, a “farejar” o inimigo.

Esse vilão, o assaltante, teve seus motivos para praticar os crimes: apaixonado por uma mulher, ele tentou comprar alguns luxos. Em uma das melhores sequências, ela dança com seu novo vestido, enquanto trovões, do lado de fora, anunciam a tempestade.

Não fosse pelo mestre, o herói teria outro destino. O cinema de Kurosawa volta-se ao grande drama, ao homem que chora quando o outro é baleado, ao outro que chora ainda mais quando sua mulher é morta. Não são meros animais selvagens.

(Nora inu, Akira Kurosawa, 1949)

Nota: ★★★★☆

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