A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit

De forma geral, A Tartaruga Vermelha é sobre a relação do homem com a natureza. Sobre a natureza. Sobre a metamorfose do homem em ilha, da tartaruga em mulher. E será a própria mulher a “mãe natureza”, que assume outras formas para se eternizar.

A tempestade do início deixa clara a importância do som: perdido no oceano, entre ondas enormes, água agitada, o homem toma fôlego e se agarra ao barco. Não chega a gritar, a falar nome algum. O diálogo inexiste na animação de Michael Dudok de Wit.

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O diálogo dá vez aos ruídos, ao barulho do mar, aos movimentos curtos dos pequenos animais que atravessam a praia, o da tartaruga que golpeia a jangada. A “voz” da natureza diz o impensável, ao mesmo tempo o universal: seu significado remete primeiro ao desespero, ao isolamento, depois à formação da vida, à continuidade.

O homem que termina na praia deseja sair dali. Constrói uma jangada. Suas tentativas resultam em fracasso: a cada investida, algo mais forte, maior, destrói o objeto de madeira e o devolve à praia. As ondas devolvem-no sempre ao mesmo espaço, à ilha que se divide entre a floresta e grandes rochedos, com um pequeno lago ao meio.

Entre as tentativas de fuga, o homem descobre a grande tartaruga vermelha. É o grande monstro que o impede de seguir em frente, o aviso que ele nega-se a enxergar: a natureza deseja devolvê-lo à ilha, ao grande espaço ao qual a personagem dá as costas.

No primeiro encontro na areia, quando a mesma tartaruga mostra-se vulnerável, mais lenta, o homem decide atacá-la. O golpe pode ser mortal. O casco do animal racha. Dele surge uma bela mulher, talvez um sonho, mas com o qual o homem, em solidão, aceita viver: abraça essa natureza que enfim se insinua como espelho.

Ou como o inverso que ele poderá viver: o outro sexo, a mulher de cabelos longos e vermelhos que, com ele, dará continuidade à espécie ou formar uma família, uma civilização. A natureza, ele não percebia, poderia lhe dar ou devolver tudo.

O homem vaga em sonhos: primeiro enxerga uma ponte de madeira para retirá-lo dali, depois encontra três músicos que tocam à beira-mar e desaparecem. O trabalho de Dudok de Wit apoia-se em uma visão que talvez não seja verdadeira, e talvez, desde o início, nada seja como se acredita: nenhuma parte daquela ilha é real.

Mais tarde, já com um filho, ele descobre que o mais jovem precisa ir embora. O próprio garoto tomará consciência. Como os filhotes de tartaruga, que nascem na praia e seguem ao mar, à incerteza do grande horizonte, ao início de um novo ciclo.

(La tortue rouge, Michael Dudok de Wit, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Capitão Fantástico, de Matt Ross

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