Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

O espectador acredita, até certa altura de Manchester à Beira-Mar, que Lee Chandler (Casey Affleck) não será capaz de chorar. Crê em um homem de pedra, direto, a executar serviços diários em uma cidade sob o gelo, distante de sua família.

Com bravura, Lee resiste às lágrimas, não ao drama. O poder da atuação de Affleck está justamente em fazer o público sentir em excesso a aparência do impenetrável, do drama gestado em fogo baixo, prestes a explodir, ou sob tal ameaça.

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O espectador, contudo, mais tarde torcerá pela fraqueza de Lee. Vale explicar: sua prisão é tamanha que o alívio só pode ocorrer pelo drama em tom maior, pelo abuso da lágrima, ou mesmo pelos pingos que se espera e nunca chegam. O diretor Kenneth Lonergan conduz assim seu sofrimento: o protagonista não se deixa derrubar nunca.

Da rotina sempre repetitiva Lee não espera nada. Mesmo seco, distante, ele está fugindo de algo. Os motivos voltam depois. Lee é obrigado a retornar à sua velha e pequena cidade após a morte do irmão (Kyle Chandler), vítima de um infarto. Revisita assim sua vida: as lembranças da mulher, do pequeno sobrinho, dos passeios a barco.

Poderia ser uma história de perda em tom maior. É a história de um homem que não consegue – ou quase nunca consegue – olhar para si mesmo, ou assumir a posição deixada pelo irmão falecido: ser um novo pai, ou irmão mais velho, para o adolescente Patrick (Lucas Hedges), cuja vida segue sentido oposto à do tio recém-chegado.

Lonergan embrenha-se em pequenos efeitos. Não tem pressa. Sua obra é feita de pequenas expressões, tão frias quanto os ambientes, da forma como as personagens evitam tocar no assunto central justamente porque são verdadeiras, ou porque tentam a todo custo tocar a vida real: elas falam sobre outras coisas, ou silenciam.

Lee sofre por não ser castigado. A dor de não pagar pela morte dos filhos pequenos, deixados para trás em uma noite de bebedeira, quando sua casa foi incendiada. À polícia, ele questiona se nada ocorrerá. Deseja saber qual será sua punição. E quando esta não vem, resolve colocar fim à própria vida.

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Recolhe-se a distância, desaparece, vaga como o fantasma faz-tudo em um condomínio. Torna-se “comum”, o zelador que presta seus serviços com fala recatada, com olhar baixo – as pequenas expressões que comprovam a grandeza do ator em questão, consciente, aqui, da importância do minimalismo.

Encarar o passado, para Lee, talvez seja o retorno ao seu próprio banco dos réus. Do qual, crê ele, deveria ter saído culpado. Sua vida parou e, a certa altura, o sobrinho confronta-o ao expor suas diferenças: enquanto o protagonista não passa de um zelador, o jovem tem sua banda, seu lugar no time de hóquei e duas namoradas.

É o que o menino argumenta ao tio: há uma vida de possibilidades a ser percorrida, à contramão da outra vida fantasma que emerge com o visitante, como se já estivesse encerrada, e como se todo o frio que os recobrem conferisse luz à sentença seguinte: para alguém como Lee, não resta mais nada senão seguir de olhos abertos.

Drama maior, por sua vez, que chega ao insuportável no encontro do protagonista com a ex-mulher, Randi (Michelle Williams). Pouco dizem um ao outro, quase nada, enquanto ela ainda solta um “eu te amo” e ele volta a se desviar. Lonergan aposta nesse drama em que se busca contornar o excesso, o que é da natureza do homem ao centro.

(Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan, 2016)

Nota: ★★★★☆

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