Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

Em três tempos, Chiron fala pouco. Ou apenas ouve e deixa que os outros falem por ele. Há sempre alguém a falar muito, com palavras que não raro atingem o protagonista em cheio: o amigo traficante, o colega de escola e, principalmente, a mãe viciada.

Todos, em algum momento de Moonlight: Sob a Luz do Luar, explicitam o drama do protagonista, a cada episódio sob um nome, batizado pela palavra das ruas nesse grande filme sobre o sentimento de um jovem negro e homossexual nos Estados Unidos.

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Sublinha-se: os Estados Unidos à beira de Donald Trump, tomados por um discurso nacionalista e de segregação. O filme de Barry Jenkins, ainda assim, acerta ao duelar com as explosões do drama, e na política sequer precisa tocar. A relação é entre negros, no gueto, no espaço em que eles não se entendem, ou no qual tendem a se estranhar.

Pois Chiron (vivido por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes em três diferentes épocas, ou capítulos) terá de viver à mira desse suposto problema: os outros dizem que ele é diferente e o perseguem. É perseguido já em sua aparição.

No início, o espectador conhece Juan (Mahershala Ali), pai espiritual do protagonista. Juan é um bom homem, um traficante que não gosta que usem drogas nas proximidades de sua “boca” e que adota Chiron ao perceber o garoto isolado dos outros.

Juan oferece ao protagonista uma forma de libertação, o mergulho no oceano que o mesmo ouve atento, mais tarde, para mergulhar em seu passado. A passagem não vem à toa, ao fim, quando o protagonista segue à casa do melhor amigo e amante: o som do mar o atrai ao que passou, ao garoto que um dia foi, de corpo azul, à luz da lua.

Essas pequenas passagens “poéticas” não escondem as intenções de Jenkins: são muitos os momentos em que o criador prefere a representação à explosão do fato. Como no momento em que opta em mostrar a mãe (Naomie Harris) aos gritos, na porta do quarto, sob as luzes fortes que demarcam as transformações da casa de Chiron: o espaço no qual ele vive, seu isolamento, suas pequenas ações diárias, e o espaço de sua mãe.

As questões sociais estão todas ali. Mas, quando opta em encurtar passagens e apresentar closes sem o uso do som, com olhares penetrantes à câmera, é de sentimentos que ele fala: a surpresa ao descobrir as coisas como são, o choque de realidade.

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Contra a palavra dos outros, todos que tanto falam, Chiron terá de aprender a confiar. Não será fácil. Juan mobiliza seu corpo pelas águas do mar, pede que ele tenha confiança. Mais tarde, na adolescência, será golpeado pelo companheiro, devido às ordens irracionais de outros jovens, à estranha necessidade de violência gratuita.

A cada expressão que volta à câmera, é como se Jenkins alimentasse as desesperanças do menino: os sentimentos de se crescer nesse meio, sendo homossexual e repelido, são os piores possíveis – o que explica a transformação de Chiron no terceiro ato.

Torna-se grande. Não apenas adulto. Seus músculos saltam. A transformação pode ser uma resposta à imagem anterior: o garoto pequeno, magro, que sofria nas mãos dos outros. Depois de preso, Chiron retorna às ruas para se transformar em seu pai espiritual: torna-se um traficante e passa a viver em Atlanta, não mais em Miami.

Certo dia seu telefone toca. É o antigo caso amoroso – o único homem que teve em toda sua vida, como confessará mais tarde. O retorna à sua antiga cidade leva ao reencontro, à conversa amigável que pouco a pouco se inclina à revisão dessa vida em três atos. Moonlight revela a sensibilidade dos brutos, o impensável: o protagonista deixa ver o mesmo rapaz de antes, seu interior e sua grandeza.

(Moonlight, Barry Jenkins, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Docinho da América, de Andrea Arnold

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