Divinas, de Houda Benyamina

A adolescente sonha com porções volumosas de dinheiro, com belos carros, com idas ao shopping para comprar produtos de marca. Passa a trabalhar para o tráfico, em Divinas, para conquistar seus objetos de desejo, e se sente feliz em tê-los mesmo quando precisa praticar um crime, como matar alguém.

Personagem central, essa adolescente é o que há de mais curioso no filme de Houda Benyamina. É ambígua: ao mesmo tempo adorável e envolvida com uma história de amor que pode redimi-la, a moça move-se a atitudes impensáveis e se marginaliza.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

divinas

Mas demonstra consciência, sem esperanças sobre o futuro: Dounia (Oulaya Amamra) relata à melhor amiga, a certa altura, que de seus sonhos brota a queda livre, o choque para que tudo acabe logo. Em Divinas, o solo firme não tarda, é o caminho previsível: a protagonista descerá ao inferno quando começa a vender drogas.

É também o caminho mais rápido à ascensão. Vê, todos os dias, o movimento de meninos e meninas com celulares na mão, com vídeos de suas viagens. O mundo longe daquele bairro tomado por imigrantes é como o paraíso – ou deve ser, pensa ela – mostrado no vídeo da líder do tráfico do mesmo bairro, Rebecca (Jisca Kalvanda).

Imagens realistas são fundidas à música clássica. A tragédia de Dounia tem sentido religioso. As ruas são o contraponto à esperança oferecida pela fé. A melhor amiga da protagonista, Maimouna (Déborah Lukumuena), diz conversar com Deus em seus sonhos. Dounia não tem esperanças: afirma que elas são micróbios perante o Divino.

Talvez Deus exista, mas seria grande demais para se importar com duas garotas pobres. A tragédia está ligada à ideia de abandono. A religião é uma esperança. Desde o primeiro momento, Dounia põe-se do lado de fora da mesquita na qual está a amiga. Em outra cena, está dentro e fora ao mesmo tempo: vende drogas no interior de uma igreja.

A religião, ainda que tímida, passa pela moça. A arte também acena e pode ser vista no corpo do rapaz por quem ela sente-se atraída, o dançarino que descobre em suas fugas a um esconderijo. Chama-a para dançar, carrega-a, como se a libertasse.

É nesses instantes que o filme de Benyamina torna-se cansativo, recorrendo à história de amor. A personagem mantém-se no inferno das ruas e das drogas, com sua inclinação a esse meio, com certo prazer, ao mesmo tempo a uma forma um pouco ingênua, quase como uma personagem saída de um conto de fadas, a descobrir o amor.

A tragédia final tenta convencer o espectador que a menina merece um voto de fé, com seu rosto coberto por lágrimas, a ser redimida. Abre-se ainda o contexto social, a revolta dos jovens do mesmo bairro de Dounia, então abandonada. Não tem contradições, está entregue. Dela, o espectador sente não mais do que pena.

(Divines, Houda Benyamina, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Dheepan: O Refúgio, de Jacques Audiard

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s