O Cardeal, de Otto Preminger

Seguir as regras da Igreja Católica é o desafio de Stephen Fermoyle (Tom Tryon). Antes de se tornar cardeal, ele trava embates com a política de sua instituição, com os velhos modos, com a diplomacia dos superiores. A impressão é que a Igreja sempre prefere o repouso à ação – imagem que ainda persiste para muita gente, religiosa ou não.

Desde os primeiros instantes, nos créditos, O Cardeal revela ser um filme de embates: o homem de preto caminha pelas estruturas, escadarias, ao lado de monumentos – ao mesmo tempo sobre eles, contra eles, em contraste, o pequeno contra o grande.

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É a história de Fermoyle, de mais derrotas que vitórias. As principais estão ligadas a duas mulheres. Uma delas é sua irmã, a outra é uma jovem que conhece em Viena, por quem se apaixona em um momento de dúvida sobre os rumos da vida religiosa.

A irmã está apaixonada por um rapaz judeu. Então padre, o protagonista tenta encontrar uma saída para o relacionamento, em Boston, cidade de sua família. Para tanto, o judeu deverá se converter ao catolicismo ou aceitar que os filhos sejam levados à igreja.

O impasse separa o casal. A irmã, interpretada por Carol Lynley, torna-se dançarina, cai no mundo; à frente, leva o irmão a assistir uma de suas apresentações, quando dança tango e aproxima o corpo do outro homem, ato pouco agradável ao padre.

O confronto com um novo universo também oferece, pela câmera de Otto Preminger, a entrada ao desconhecido com tamanho descomunal: em uma das melhores cenas, em plano-sequência, Fermoyle passa pela porta do teatro, espera encontrar a irmã, mas o que vê é uma cantor vestido como soldado, entre mulheres com pouca roupa.

O tamanho do espaço estranho, não mais distante, com o qual ele depara-se ao escolher os embates, mostra o quanto o alto Tryon pode ser apequenado. Ou o quanto a fotografia de Leon Shamroy valoriza o ambiente percorrido pelas personagens.

O herói consegue retirar a irmã desse meio libertino. Ela está grávida. Não se sabe quem é o pai. Levada ao hospital, ela só poderá ser salva com a morte da criança que carrega. A escolha – entre a vida dela ou a da criança – terá de ser feita pelo irmão, o padre, que segue os ensinamentos da igreja. Não matarás, aponta o mandamento.

Preminger evita o drama fácil ao deixar de lado pequenas reações, cortes fáceis, ainda que não resista, ao fim, à aproximação entre Fermoyle e a mulher que um dia amou, Annemarie (Romy Schneider), presa em Viena durante a ascensão nazista.

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A mulher representa outro drama em sua jornada. Tal como ocorreu à irmã, ele poderia tê-la salvo. Poderia ter casado com ela, no passado, e abandonado a batina. Preferiu a igreja. Ela casou-se com outro, justamente um judeu. O resto já se sabe.

O rosto de tristeza do protagonista, enquanto se torna cardeal, leva ao passado. As memórias retornam. O caminho à gratificação, ao título, justifica seu olhar de tristeza: para homens como ele, a igreja não pode tomar distância da ação, das ruas.

E ainda que esse sinal nem sempre soe como grito, nas menores passagens ele pode ser sentido, na polidez de Tom Tryon (na maneira como se despe do galã) ou mesmo ao não deixar escapar questões como a segregação racial e o totalitarismo.

Evita, felizmente, a mensagem fácil. Às vezes deixa de entregar a resolução de uma passagem, como o julgamento dos sulistas brancos que incendiaram uma igreja frequentada por negros. A obra de Preminger lança sua personagem como polo oposto aos cenários e ambientes, parte pequena entre eles, em batalha nem sempre gloriosa.

(The Cardinal, Otto Preminger, 1963)

Nota: ★★★★☆

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