Sete Homens e um Destino (as duas versões)

Quando a primeira versão de Sete Homens e um Destino foi lançada, em 1960, heróis que se moviam pela honra e pela vontade de ajudar faziam mais sentido. A aparência de um universo quadrado, mais simples na construção das personagens, permitia aceitar algumas escolhas desses pistoleiros de bom coração.

A nova versão, assinada por Antoine Fuqua, tenta resgatar o velho sentido do heroísmo, no velho oeste mítico de mocinhos, bandidos e gente indefesa, sem tato algum com a pólvora: mesmo que haja um pouco de dinheiro e ouro envolvido, ou mesmo uma vingança pessoal, o que vale mesmo é ajudar o povo oprimido.

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Os criminosos não são mais um bando de mexicanos liderados pelo impagável Eli Wallach – mais cômico que amedrontador. Na releitura, são liderados por um rico e explorador americano, mais temente a Deus do que possa parecer. E o fato de o filme de Fuqua ter início na igreja indica a principal alteração.

O líder dos criminosos, Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), evoca o pó, guardado em um recipiente, para tentar convencer os moradores da pequena cidade da pouca validade daquele local. Ignora as raízes, até mesmo a igreja na qual discursa.

Ignora Deus, sim, embriagado pelo poder, em uma história sobre sete homens a guiar esses mesmos cidadãos contra o carrasco de olhar debochado. A igreja será o primeiro ponto da cidade a ser queimado. Depois, e ainda que alguns moradores corram dali, outros insurgem contra o capitalismo opressor representado por Bogue.

Sem o local divino, a igreja, eles recorrem aos homens. A moça que teve o marido assassinado (Haley Bennett), ao lado de um amigo, encontra o pistoleiro Chisolm (Denzel Washington) a três dias dali. Contratado, ele começa a formar o bando.

A versão de 1960 traz Yul Brynner como líder do grupo. Um herói em formato mais plano, direto, de interpretação sem o mesmo mistério da de Denzel. O mesmo se aplica aos outros seis homens: gente aparentemente comum, sem segredos.

Os novos sete têm beleza evidente, como super-heróis um pouco desajustados, nos moldes do cinema de ação atual. Uma beleza que às vezes não coincide com o ambiente do Oeste sujo que o filme deseja recuperar. Cada tempo se serve de seus tipos. Na versão de 1960, os pistoleiros estão talhados à natural imperfeição.

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Não são belos, dirão alguns. Dão vida à beleza da época, um jeito fora de moda no olhar ou mesmo nos trajes, nas camisas apertadas ou desabotoadas, na pouca virilidade do rapaz (Horst Buchholz) que tenta ser pistoleiro, sente-se humilhado pelo líder dos heróis e, ao fim, termina no mesmo vilarejo mexicano. Seu destino é ser um marido.

Há relação maior com a terra na versão de John Sturges. É possível ver os homens trabalhando, convivendo com as pessoas do vilarejo, gente de lados opostos. Os americanos atravessam a fronteira para ajudar um povoado mexicano que planta milho. Um tratado de tolerância que tem início quando as personagens de Brynner e Steve McQueen aceitam escoltar a carruagem que leva o corpo de um índio ao cemitério.

Falta uma sequência simbólica como esta – ainda que a igreja queimada tenha seu simbolismo próprio (e forte) – na versão renovada. Momento que resume o todo, no qual fotografia, direção e música compõem o velho Oeste presente em várias produções feitas antes, mas em poucas depois. Boa parte do que vem a seguir não está à altura.

Comparar cinemas tão diferentes é difícil mesmo com filmes que partem da mesma fonte, Os Sete Samurais, uma das obras-primas de Akira Kurosawa. Nos três preserva-se o mesmo espírito, o de homens que se guiam por uma honra certamente fora de moda ao público guiado pelo costumeiro individualismo de tempos recentes.

(The Magnificent Seven, John Sturges, 1960)
(The Magnificent Seven, Antoine Fuqua, 2016)

Notas:
Versão de 1960: ★★★☆☆
Versão de 2016: ★★★☆☆

Veja também:
Ben-Hur (em três versões)

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